Saturday, October 14, 2006

Eu não peguei o seu isqueiro.

Eu não peguei seu isqueiro. Sei que ele era uma das desculpas esfarrapadas que você usava para justificar o cigarro e sei que, por ser sua amiga, sou uma das maiores inimigas do seu vício. Mas não, não peguei seu isqueiro. Ele estava ali, escondido, disfarçado de carrinho. Algum outro escravo da fumaça deve ter levado a carteira, com um brinquedo de brinde. Chegou na fase do roubo para sustentar o vício.

Mas não peguei seu isqueiro. Se pudesse, pegaria o isqueiro que existe dentro da sua cabeça e que acende sua vontade de fumar. Se pudesse, esconderia esse isqueiro e o lançaria no fundo do lago, de onde ele não pudesse sair, nem ver, nem acender nada. Mas esse isqueiro eu não posso pegar (e não se preocupe, não pretendo tentar, em uma cirurgia exploratória).

Por isso eu nunca pensei que pegar seu isqueiro pudesse ter alguma utilidade prática ou mesmo simbólica, visto que você já escreveu sobre outros onze isqueiros. Ele esconde suas intenções pérfidas atrás das luzes e da aparência infantil. É um falso, dissimulado, no qual eu nunca vi a menor graça. Ele quer que você use o deselegante cigarro, que esconda o perfume atrás do cheiro da fumaça e quer que você se apegue emocionalmente a ele, por isso se disfarça de brinquedo, por isso faz barulhinho e pretende ser engraçado. Mas eu sei de suas intenções. E ele sempre me olhou desconfiado, nunca gostou do meu desprezo, sempre mantivemos entre nós a distância dos inimigos.

Eu não suportaria ter de roubar todos os isqueiros engraçados e sem graças do mundo para te convencer de que sou mais sua amiga do que eles. Não há espaço em minha casa para escondê-los, nem haveria lago suficientemente fundo no qual afogá-los.

Eu não peguei o seu isqueiro. Nem sua carteira de cigarro. Não peguei sua vontade, nem seu desespero. Não peguei sua intenção, nem sua procura. Porque você não fuma o cigarro, fuma a vontade. Fuma a antecipação, traga a impaciência. Não lida, não aproveita, transforma em fumaça, entranha as toxinas. Isso eu sei que não posso pegar, não posso esconder de você.

Não duvide de que se eu pudesse, pegaria o que te faz escravo do vício. Mas o isqueiro é pequeno demais. E te avisaria, quando pegasse, diria com todas as letras: não há resgate. Prefiro, porém, esperar que você jogue no fundo do lago o isqueiro que cresceu em seu cérebro e acende o vício. Só você tem acesso a ele.

Infelizmente, seu isqueiro está agora com um desconhecido. Um pobre viciado que encontrou uma carteira de cigarro abandonada e enfiou no bolso. Alguém a quem você, involuntariamente, deu cinco minutos a menos de vida por cigarro. Não sofra pelo isqueiro, ele está cumprindo alegremente sua assassina missão neste mundo e resolveu fugir, entregar-se a outro viciado porque sabe que você abandonará o cigarro em breve e ele será apenas mais um souvenir para acender o fogão. Ele não poderia suportar tal ignomínia.

Porém, em você, existe algo que ninguém nunca poderá tirar. E que é muito mais importante do que qualquer maço de cigarros.

Eu não peguei o seu isqueiro. Ele jamais aceitaria vir comigo.