We're Back

Desde antes da cirurgia eu estava em contato com o único grupo do qual participo no Multiply: Gatos. O pessoal me deu algumas dicas, me tranqüilizou bastante, dizendo que em uma semana ela estaria 100% Há séculos não acompanho a recuperação de uma esterilização, já que quando a Lady foi castrada eu tinha treze anos e minha memória não é lá grande coisa, só me lembro que ela arrancou os pontos umas três vezes e esse era o meu único medo.
Com o passar dos dias a cicatriz formou uma quelóide escura e toda a pele ao redor começou a ficar vermelha e irritada, depois com a aparência de queimada e logo começou a endurecer. Passamos tudo o que a veterinária nos disse para passar: um spray de própolis, calêndula e outras coisas em solução alcoólica (que parei de colocar quando testei em um machucado meu e ardeu horrores), hipoglós (que parei de colocar quando ela lambeu toda a pomada e passou muuito mal) e depois que a pele endurecida se transformou em uma casca preta e começou a descolar do resto da pele, expondo uma carninha avermelhada, entramos em pânico.
A veterinária nos acalmou, até achou graça do meu desespero, disse que era normal, que era alguma reação alérgica e que a pele nova cresceria pelas bordas, que dali para diante era só passar uma pomadinha de calêndula que a aparência melhoraria. Ok. Eu sou teimosa, mesmo tendo sido tranqüilizada, não me tranqüilizei. Comecei a colocar própolis em solução glicólica, que não arde como a alcoólica e tem o mesmo efeito. E não comprei a tal pomadinha porque não a encontrei.
Os dias foram passando e a aparência só piorava. Viajei para Campo Grande e o Davison ligou, dizendo que a pele havia se descolado mais, que a ferida ao redor não cicatrizava e que parecia estar com um cheiro ruim. A decisão foi unânime: outro veterinário já. Perguntei na tal lista de gatos se alguém conhecia um bom vet em Porto Alegre, uma menina recomendou a clínica veterinária do Forte e disse que eu deveria marcar com uma veterinária fêmea, porque elas eram mais delicadas :) Passei a informação para o Davison e felizmente ele a ignorou. Foi atendido por um ótimo veterinário, que se estivesse sozinho na clínica seria mais feliz.
Ele disse que o problema todo parecia ser uma reação alérgica aos pontos da cirurgia (ou por contaminação) e que aquela casca escura na verdade era pele morta. Retirou os tecidos necrosados, encontrou uma espécie de "umbigo", um buraco que seguia para baixo e para dentro, até o final da ferida. Por ali conseguiu ver o músculo descobriu que o organismo estava querendo expulsar um ponto interno, de náilon, conseguiu retirá-lo e não viu mais nenhum, injetou antibiótico de longa duração e receitou rifomicina, uso tópico, por três dias (devo acrescentar que ela estava tomando antibiótico desde o dia da cirurgia).
Três dias depois, no dia 4 de julho, a ferida continuava aberta e o veterinário decidiu fazer uma cirurgia para ver se ainda havia ponto interno. Havia. Foi retirado mais tecido e aí começou a parte mais esquisita: ele deu pontos para fechar a lesão. Como assim? Você me pergunta. Não sei- eu te respondo. O problema todo não era reação aos pontos? Então dar mais pontos não vai causar mais reação? Pois é, assim diz nossa lógica. E veterinários não conhecem lógica.
Dia sete de julho eu já estava aqui e foi a vez de as veterinárias da tal clínica, assistentes do ótimo veterinário conhecerem a criatura que vos escreve. Levamos a gatinha. Na nossa cabeça ela iria tirar os pontos, já que entendemos que ela deveria ficar o mínimo de tempo possível com eles, mesmo entendendo também que tinha passado muito pouco tempo para isso, mas enfim, levamos a gatinha lá para um bom passeio, no mínimo.
Fomos atendidos por uma veterinária muito simpática, grávida, esposa do veterinário legal que havia conversado com o Davison. No problem. Os problemas começaram quando resolveu, como ela mesma disse, "chamar reforços". Chegaram as duas amazonas do apocalipse, das quais nem o nome nem a fisionomia meu cérebro fez questão de guardar.
Uma delas logo mostrou a que veio: pegou a caixa de transporte, que trazia em seu interior uma gatinha minúscula, doentinha e apavorada, e virou-a de cabeça para baixo, batendo no fundo, para que a gata caísse na mesa como se fosse um resto de molho de tomate que se quer tirar do fundo da lata. Eu e a veterinária grávida formamos o indignado côro "não precisa disso, ela é calminha!" Óbvio que qualquer veterinário que se preze primeiro vai tentar tirar o bicho da caixa com as mãos ou conversar com ele para acalmá-lo, mas ela foi formada na faculdade troglodita de medicina veterinária e não aprendeu isso.
Depois desse episódio lamentável, uma cena grotesca: as três mulheres segurando a gata no ar, uma pegando-a pelos braços, a outra pelas pernas e uma terceira puxando a pele da barriga e os pontos, a ponto de sangrar. A gata gritando, desesperada e alguém dizendo: "Calma, gatinha". Como assim, "calma gatinha????? " Eu não conheço gata mais calma do que a minha, ela só faz escândalo quando realmente está doendo. E pelo visto estava.
Eu fiquei chocada, obviamente, e pedi que parassem com aquilo. A vet grávida então avisou que o corte não havia cicatrizado e que a cirurgia teria que ser refeita. Segundo ela, eu deveria deixar a Ricota lá por três dias para que ela fosse medicada e ficasse em observação.
Fui bem clara: internada minha gata não fica. Na verdade eu nem queria que ela refizesse a cirurgia. Perguntei a ela:
-Mas escuta, o problema não foi reação aos pontos? E fechar o local com mais pontos não pode causar nova reação aos pontos? Aí eu terei que trazer a gata de três em três dias aqui para costurar novamente?
Ela me respondeu:
-Bem, a gente espera que isso não aconteça.
Olha, eu detesto ser injusta, mas o meu trabalho é esperar que não aconteça, o trabalho dela é fazer com que não aconteça. No final das contas, após muita negociação, consegui combinar o seguinte: ela ficaria na clínica para que a cirurgia fosse refeita, mas eu iria buscá-la às seis horas da tarde e a levaria todos os dias para tomar antibiótico e trocar o curativo. Tudo bem.
Cheguei em casa e corri para a lista telefônica, caçar um veterinário homeopata. A vida inteira tratei meus gatinhos com homeopatia e sempre funcionou muito bem.
Já que ninguém me dava garantia de nada, eu decidi fazer do meu jeito. Liguei para algumas clínicas que diziam trabalhar com homeopatia e as homeopatas só atendiam com horário marcado, nas terças, quintas e sábados pela manhã. Ou seja, se a doença de seu bichinho não marcar horário com antecedência para aparecer, não dá para escolher com quem tratar.
Sim, eu sou mal-humorada em situações como essas. A última opção era bastante estranha. Dr Antônio Carlos UHR. Eu tinha meio que deixado para lá por não ter entendido a sigla. O que raios era um veterinário UHR?? Só depois desconfiei que era o sobrenome do cara.
Bem, liguei. Ele mesmo atendeu, disse que era alopata de formação e homeopata por opção. Conversamos bastante, ele foi bem claro, deu sua opinião, tirou algumas dúvidas, muito simpático e seguro do que dizia.
Sem contar que falou o que eu já pensava: se o problema havia sido reação aos pontos, o ideal seria retirar o corpo estranho (os pontos) e deixar fechar naturalmente. E não havia necessidade de entupir o bicho de antibiótico um mês.
Decidi levá-la naquele mesmo dia. Liguei para a clínica umas quatro e meia da tarde e a secretária disse que a doutora havia combinado comigo às seis e não liberaria a gata antes, que era para eu ligar lá pelas cinco e quinze e conversar diretamente com ela, se quisesse. "Estou saindo de casa agora, vou direto para aí pegar a minha gata e falo pessoalmente com ela, pode ser??
Sim, obviamente toda a população daquela clínica passou a me amar profundamente no exato instante em que me viu entrar e dizer, simpaticíssima, às cinco da tarde: "Oi, eu vim buscar minha gata, a Ricota". Davison sentou e eu fiquei em pé, de braços cruzados, esperando que a trouxessem.
- Mas você não tinha combinado de deixar ela aqui três dias? - Perguntou uma das duas amazonas do apocalipse.
- Não eu disse que a buscaria às seis da tarde.
- Mas ela tem que ficar aqui três dias. - Insistiu, com aquela cara de "quer matar sua gata?"
- Já combinei, eu vou trazê-la todos os dias, mas ela vai para casa.
Então chegou a segunda amazona do apocalipse- aquela, a troglodita, com a caixa de transporte na mão. Ok, a gata estava lá dentro, protegida, menos mal.
- Eu não estava aqui, então não tenho a mínima idéia do que o doutor fez. - Disse ela, sorrindo como apenas um troglodita sabe fazer.
Felizmente a dra Grávida chegou e pôde me dar maiores esclarecimentos, ou melhor, pôde me dar algum esclarecimento. Segundo ela foi feita uma nova cirurgia para retirar mais tecido, limpar o local e fechar, e foi dado um antibiótico ainda mais potente, que deveria ser reaplicado por mais três dias e depois...bem, depois era uma incógnita.
Detesto médico que não sabe responder minhas perguntas, dá respostas evasivas, ou contraditórias e deixa bem claro que não consegue pronunciar a frase: "eu não sei". Pô, eu não sou burra! Sei ler um "eu não sei" estampado na testa de alguém.
Todo mundo tinha um "eu não sei" estampado na testa, menos a dra Troglo, que tinha um imenso espaço em branco estampado na testa.
- Olha, colocamos uma roupinha nela, ela está com uma roupinha de gaze, para proteger o curativo, olha só. - Disse, provavelmente por ser a única coisa que ela sabia que havia sido feita. Então, para meu espanto, abriu a caixa de transporte.
- Eu sei, eu sei disso, ela já estava com uma dessas antes.
- Olha aqui, olha aqui. - Disse, tirando a Ricota da caixa, com delicadeza zero. A gata gemeu, estava saindo da anestesia, acabara de fazer uma cirurgia, estava toda dolorida e assustada e a mulher parecia estar pegando um pacote de carne moída. - Olha só!
- Eu sei, eu já vi! Coloca ela de volta na caixa! Coloca ela de volta agora!- Disse, sem esperar que ela me obedecesse, colocando eu mesma a gata de volta na caixa, com a mão dela e tudo. Tentei, inconscientemente, fechar a mão da dra Troglo dentro da caixa, trogloditamente, para ela entender o que eu estava dizendo, mas para a felicidade dela, não consegui.
Silêncio geral e sorrisinhos amarelos ainda tentaram me convencer da imprescindibilidade de levá-la de volta no dia seguinte para entupí-la de antibiótico e trocar o curativo. Amanhã, queridas, amanhã eu penso nisso, diria Scarlett.
Corremos para o Dr Antônio Carlos, o cara se formou um mês antes de eu nascer, diz um dos diplomas na parede (obviamente não diz exatamente com essas palavras). Conversamos muito, muito mesmo com ele, contamos a história da vida da Ricota e do Tiggy com riqueza de detalhes (vocês sabem como eu sou com essa coisa de detalhes), depois ele nos mostrou alguns pacientes internados: uma boxer, que sofreu um aborto e estava com infecção no útero, esperando para ser esterilizada na manhã seguinte e dois gatinhos, um esperava o dono buscá-lo e o outro não tem dono ainda, é filhotinho, preto-e-branco e tem um probleminha nas patinhas da frente, mas sinceramente eu só notei bem depois, porque ele corre e brinca normalmente. Muito fofo.
Então ele foi examinar a Ricota, tirou a tal roupinha cirúrgica e só então vimos uma coisa estranha: o curativo estava costurado à pele!! Sim, havia um tampãozinho de gaze costurado sobre a cicatriz!! Foi combinado que voltaríamos em dois dias para tirar o curativo (porque ela precisaria ser anestesiada novamente), depois que eu deixei claro que não estava disposta a levá-la novamente àquela clínica da dra Troglo.
Voltamos então no sábado, o curativo foi retirado e ele disse que iria manter os pontos (o nylon preto havia sido substituído por linha de pesca na última cirurgia) durante a semana e nos recomendou colocar açúcar cristal na área. Espantado, como eu? Então leia o tópico "PRODUTOS MAIS UTILIZADOS NO TRATAMENTO DE FERIDAS" aqui: Enfermagem em Ação
Hoje já é quase quinta-feira e a aparência do corte está bem boa. A cicatriz, em formato de Y, a pele bem fechada, exceto no meio, onde as retas do Y se encontram. Ficou um buraquinho que também já está cicatrizando, lentamente, e estamos colocando tanto açúcar que ela já atende por Compota. Pela primeira vez em um mês está brincando sozinha, correndo a casa inteira e brincando de luta com o Tiggy, como fazia antes. Até semana passada, se ele chegasse perto ganhava um rosnado. Já é um bom sinal.
E sim, eu fiquei fã do Dr Antônio Carlos Uhr. O cara explica absolutamente tudo com clareza, tem um ótimo senso de humor e uma paciência infinita, porque eu sou chata, muito chata....risos... Detesto médico que faz cara feia quando você começa a fazer perguntas e não responde direito, esperando que você cale a boca, com aquela cara de "eu sei tudo, você não sabe nada, cale-se, seu réptil". Isso vale para veterinários também. Respeito e humanidade. Duas palavras que andam se perdendo no trato dos humanos com os animais...e dos humanos com os humanos, não é verdade?
PS: ?O açúcar comum ou sacarose de cana-de-açúcar vem sendo utilizado na rotina médica para tratamento de feridas infectadas (Weiss et al., 1984; Raiser, Badke, 1987). Na forma granulada apresenta efeito cicatrizante (Prata et al., 1988), além do poder antimicrobiano sobre alguns tipos de bactérias freqüentemente isoladas de feridas cirúrgicas (Costa Neto et al., 1997). Acredita-se que a hiper-osmolaridade ocasionada pelo açúcar torne o meio inadequado para o crescimento e sobrevivência bacteriana e, também, pelo seu alto poder higroscópico contribua para a redução do edema (Weiss et al., 1984)." (retirado de estudo feito por alunos de Medicina Veterinária, pós-graduação, da UFSM)
Ps2: Finalmente a Ricota começou a engordar, os pêlos voltaram a crescer e ela está parecendo mais com um gato e menos com um ferret.

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