Wednesday, June 29, 2005

Novos Horizontes


Aos poucos estamos nos habituando ao frio, eu e a Ricota. A parte chata deste apartamento é que quando o vizinho fecha alguma porta parece que foi aqui dentro. O cachorro correndo no pátio da casa ao lado parece estar dentro da minha sala, assim como a dona dele, que fala bem alto com uma outra, todas as tardes, religiosamente. Os gatos já cansaram de se assustar com esses barulhos, mas eu ainda não me acostumei. Quando a campainha do vizinho toca eu acho que é aqui, assim como o telefone e batidas insistentes na porta. Não sei se isso é resultado de uma casa praticamente sem móveis ou se a acústica do prédio é assim, tão boa.

Tinha que ir a Campo Grande resolver alguns problemas, mas a viagem acabou adiada, indefinidamente. Talvez eu ainda vá no final da semana que vem, mas acho pouco provável, o frio me chama e não parece estar muito interessado em me deixar escapar para terras mais quentes. E os problemas serão resolvidos da melhor maneira possível, comigo ou sem migo, tenho certeza.

A tolerância a baixas temperaturas parece estar aumentando, e apesar de minha janela ter vista para as casas dos vizinhos, até isso tem sido interessante. Não que eu goste de bisbilhotar a vida alheia (nãããão...), mas sempre achei interessante olhar a casa dos outros, de longe.

Ver os móveis que as pessoas têm em casa, o que resolveram fazer com cada cômodo, imaginar como surgiu a idéia de transformar aquele quarto em escritório, ou por que a esteira está junto com uma pilha de resmas de papel A4 em um cubículo fechado. A rigor todos os apartamentos são iguais, mas olhando assim, de fora, a gente vê o quanto eles são diferentes, ou melhor, ficaram diferentes após a intervenção de seus moradores. Não me interesso tanto no que as pessoas estão fazendo agora, mas em imaginar como é a vida delas, o que as levou a colocar os móveis naquela disposição ou qual é a rotina de cada um. Saber tudo isso é o de menos, eu prefiro mesmo imaginar.

Por exemplo, no prédio ao lado, lá pelo quarto andar, tem uma casa azul para passarinhos presa à parede. Será que mora realmente um passarinho lá? Será que o dono da casa espera, pacientemente, que algum passarinho tenha a boa vontade de fazer morada naquele azulado lar? O que raios leva alguém a prender uma casinha azul de madeira à parede?

Dois andares abaixo, um tapete descansa, há dias, na sacada. Talvez ele estivesse sujo, então alguém o lavou e o colocou na sacada para secar. Alguém ainda lava tapete em casa? Nesta terra úmida, em que nada seca? Mais provável que ele estivesse guardado há algum tempo e alguém resolveu colocá-lo ao sol. Está lá há dias, esperando que o sol apareça, obviamente, já que ele não me parece ser um visitante muito habitual por aqui.

Entre os dois apartamentos, no terceiro andar, quatro gaiolas podem ser vistas atrás do vidro fumê que protege a sacada de olhares curiosos, como os meus. Quatro gaiolas!! Me dá agonia ver pássaros presos em gaiolas. Quatro?? É ali que fica a carceragem. Eles devem ser bandidos perigosíssimos (como a minha gatinha-bomba), sem direito a um mísero banho de sol. Aliás, como já foi dito, sol? Que sol?

Não cuido as pessoas, aliás, eu detesto quando elas aparecem. Cortam o meu barato, mesmo que nao estejam me vendo. Quando percebo que tem alguém por perto, fecho a janela. Quero ver as coisas, quero imaginar, observar, viajar. Gente só atrapalha.

Bem embaixo da minha janela tem uma casa, ou melhor, os fundos de uma casa, a varanda, varal com roupas de bebê, etc. O que mais me chamou a atenção ali, no entanto, foi alguém me olhando da janela da cozinha: um gato. Ou gata, não sei. Mas fiquei bastante emocionada ao encontrar um vizinho felino com quem conversar. Ele já viu os gatinhos, mas os gatinhos não o viram. Tentei mostrar, mas eles sempre achavam alguma coisa que se movimentasse mais para ver. Realmente é difícil competir com passarinhos, cortinas esvoaçantes, barulhos, nuvens, cachorros saltitantes e insetinhos voadores. Mas eu o vi. E tirei foto, claro :)

Imagino que meus vizinhos não ficariam muito felizes ao descobrir que adoro observar suas casas, mas o fato de eu não ser nenhuma espécie de psicopata deveria trazer-lhes algum alívio. O problema, no caso, é se algum deles for alguma espécie de psicopata e resolver observar a minha casa. Isso me faria fechar as janelas rapidinho, caso houvesse alguma coisa a ser vista do lado de cá.

A vista da janela não é bonita para seres humanos, mas os felinos parecem amar. Agora até a Ricota se interessa em ficar na janela, olhando o movimento. Mas o que o Tiggy mais gostou deste apartamento é que é bem mais espaçoso que o outro e, por não ter carpete, é bem mais fácil correr.

Corre da cozinha até o quarto, do quarto até a cozinha, sobe nos poucos móveis com uma agilidade espantosa, se joga na rede da janela (felizmente está bem presa), brinca com os milhares de ratinhos (de brinquedo, óbvio, né?) espalhados pela casa, derruba o que encontra pela frente... Hoje eu disse a ele, depois de uma bagunça qualquer que ele fez: "Gato, alguém já te disse que você parece um cachorro?" O cachorro do vizinho latiu, reclamando da comparação.

Ela, apesar de ser mais nova, é bem mais calminha, a gente estranha e até se preocupa com esse jeito Ricota de ser. Acho que ela não enxerga muito bem, por isso parece mais bobinha, mais quietinha. Mas já está bem adaptada à casa. Fico aqui olhando para eles e pensando naquelas pessoas ignorantes que realmente acreditam na lenda de que o gato se apega à casa, não ao dono e abandonam os gatinhos quando mudam de casa.

O gato muda com o dono, sim. E antes de começar a mudança, levar caixa para lá, arrastar móveis para cá, tranque o bichinho na caixa de transporte e deixe-o no lugar mais calmo da casa. Se ele ficar solto e se assustar, tendo acesso á rua, é óbvio que vai fugir correndo. Quando voltar para casa, o dono não estará mais lá. Se a gente se dispõe a ter bichinhos em casa, tem que pensar primeiro neles, que não têm a noção que a gente tem das coisas, não sabem o que está acontecendo e dependem totalmente dos donos.

Sabendo que estão juntos, que estão com a gente, seguros e protegidos, eles se adaptam rapidinho e ficam tranquilos, sem grandes dramas, apreciando qualquer paisagem, em qualquer lugar. Mesmo que não tenha aquela beleza toda do Rio de Janeiro, mesmo que a paisagem seja a varanda de duas casas e um prédio enorme cheio de janelas, mesmo que o primeiro andar não seja lá tão emocionante para um humano do que o décimo, décimo quarto, o importante é estar com quem se ama. E isso vale para qualquer espécie animal, incluindo o homem.































O vizinho vaquinha (aposto que é fêmea), observando sem ser notado. Mais abaixo, a dupla dinâmica- Ricota e Tiggy




Detalhe da vizinha-vaquinha








A casinha azul

















PS: Só gato mesmo para me fazer parar de colocar fotos da minha cara por aqui...risos...