Raíssa

Hoje é o aniversário de uma bonequinha que surgiu em minha vida há quatro anos e apesar de agora morar tão longe de mim está sempre por perto, aqui, em minhas lembranças. Ela ainda não sabe ler, ou se sabe, não acessa a internet, mas eu preciso dizer da saudade que sinto e da vontade profunda de encontrá-la, brincar, conversar, contar histórias e fazer bagunça.
Ela já tem quatro anos. Já fala tudo certinho, não me chama mais de tia Danêta, mas continua sendo a menina alegre, carinhosa, inteligente e atenta que sempre foi. Não tem quem não se encante ao conhecê-la, e eu me espanto ao saber que foi há quatro anos que tudo começou.
A Claudia me acordou, pela manhã. Olhei para a porta, pude ver sua silhueta contra a luz forte do sol, que vinha da varanda. O vestido com estampa de oncinha era - por mais incrível que possa parecer- discreto e ela era a grávida mais bonita que eu já vi. Alta, a barriga grande e arredondada, o vestido solto, tecido fininho, mangas curtas, descia até o joelho. Os cabelos escuros e com cachos muito bem definidos na altura dos ombros estavam soltos, a sandália nos pés, ela ia sair.
- Aonde você vai? - Perguntei, ainda meio dormindo.
- Vou para a maternidade. - Ela disse, tranquila- o nenê vai nascer.
Como assim? Pulei da cama. Ela estava aparentemente calma, o sorriso ligeiramente ansioso nos lábios, como se estivesse para ganhar um grande presente certo. Me arrumei rapidamente, não perderia aquele momento por nada. Ela e o marido estavam morando em nossa casa e o bebê era praticamente comunitário, todo mundo estava esperando aquele dia, mas achávamos que ainda demoraria algum tempo. Fomos correndo para o hospital, ansiosos. Eu, minha mãe, meu cunhado e minha irmã, com sua barriga.
Esperamos algum tempo. A Claudia estava tossindo e a dor era intensa, mas nada de dilatação, eu já estava ficando angustiada. Ela também, certamente. Então ela entrou na sala de cirurgia, para uma cesariana. Aguardamos, ansiosos, na sala de espera, eu e o Adalcir, meu cunhado.
Pouco tempo depois ouvimos um choro muito forte, bravo. Imaginei que fosse alguma criança de uns cinco, seis anos, com a perna quebrada, entrando no hospital para fazer alguma cirurgia ou coisa parecida. Era um hospital pequeno, não exclusivamente maternidade, e não havia mais nenhuma parturiente, nenhum recém-nascido. Logo depois o médico abriu a porta, com um embrulhinho no colo.
- Aqui está a moça.
Não acreditei. Tinha sido muito rápido. Então o choro forte que eu tinha ouvido era realmente daquela coisinha? Nos levantamos para ver o embrulhinho. O rostinho inchado e ainda sujo do parto, um olhinho aberto e outro fechado, o cabelinho molhado, grudadinho na cabeça, muito cabelo, liso e bem preto. A boquinha bem desenhadinha, sobrancelhas marcadas, olhos puxados...praticamente uma xerox da minha irmã.
- Não se preocupe - o médico consolou meu cunhado - o próximo vai sair parecido com você, porque essa aqui é a cara da mãe.
Nos primeiros dias ela teve icterícia por incompatibilidade ABO, teve que tirar sangue e a enfermeira pela primeira vez viu uma recém-nascida de três dias golpeá-la tão fortemente com os pés a ponto de impedir que ela lhe espetasse a pele.
Muito forte, bravinha e com uma coordenação motora muito desenvolvida para a sua idade, a Raíssa foi um bebê que nos surpreendia diariamente. Aos quatro meses já se sentava sozinha, os dentes demoraram a nascer, aparecendo apenas depois do primeiro ano, mas muito antes disso ela comia de tudo, mastigava com as gengivas mesmo e não estava nem aí.
Quando meu pai morreu, às vésperas de ela completar um ano, foi sua alegria que manteve a casa, um furacãozinho que não nos deixou desabar. Os cabelos lisos e pretos deram lugar a cachinhos acobreados e até pouco tempo ela ainda tinha jeitinho de bebê. Mas largou a chupeta, tirou as fraldas, aprendeu a falar certo e, para minha surpresa, dia desses recebi fotos recentes dela (uma delas abre este post. As outras fotos do post são mais antigas). Eu a vi há não muito tempo, em Fevereiro, mas ela já mudou bastante. Está parecendo uma criança, não é mais um bebê.
O que acontecer de agora para diante formará lembranças ainda mais nítidas em sua mente do que o que aconteceu antes (eu, por exemplo, fiz uma cirurgia cardíaca aos quatro anos e me lembro perfeitamente até hoje). Embora eu tenha certeza de que ela jamais se esquecerá do priminho, Juninho (que agora está mais perto, em Maringá), dos tios, da avó que ela tanto ama, das nossas brincadeiras e do gatinho Nermal, que a adorava.
E ela vai ser sempre a minha bonequinha, mesmo depois, quando estiver maior do que eu, mesmo depois que meus filhos nascerem, não importa quantas outras bonequinhas eu venha a ter no decorrer da minha existência, ela vai sempre ter o lugarzinho mais do que reservado no meu coração e em minha vida, quero sempre ter aquele abraço apertado que só eu sei o quanto me faz falta.
E a Claudia estava certa, naquela manhã de trinta de Abril de 2001 ganhamos o maior presente que alguém poderia esperar. E tenho certeza de que esse presentinho ambulante ainda nos trará muita felicidade, sendo feliz, alegre e cheia de saúde e energia, cada dia mais. É isso o que eu desejo, bonequinha, e quero que saiba que a titia pensa em você todos os dias, com o carinho e a saudade que tempo nenhum poderá apagar. Você está crescendo. Eu também.


Eu e minha bonequinha, em 2001:


Minha menina linda, que saudade de você...

Hoje é o aniversário de uma bonequinha que surgiu em minha vida há quatro anos e apesar de agora morar tão longe de mim está sempre por perto, aqui, em minhas lembranças. Ela ainda não sabe ler, ou se sabe, não acessa a internet, mas eu preciso dizer da saudade que sinto e da vontade profunda de encontrá-la, brincar, conversar, contar histórias e fazer bagunça.
Ela já tem quatro anos. Já fala tudo certinho, não me chama mais de tia Danêta, mas continua sendo a menina alegre, carinhosa, inteligente e atenta que sempre foi. Não tem quem não se encante ao conhecê-la, e eu me espanto ao saber que foi há quatro anos que tudo começou.
A Claudia me acordou, pela manhã. Olhei para a porta, pude ver sua silhueta contra a luz forte do sol, que vinha da varanda. O vestido com estampa de oncinha era - por mais incrível que possa parecer- discreto e ela era a grávida mais bonita que eu já vi. Alta, a barriga grande e arredondada, o vestido solto, tecido fininho, mangas curtas, descia até o joelho. Os cabelos escuros e com cachos muito bem definidos na altura dos ombros estavam soltos, a sandália nos pés, ela ia sair.
- Aonde você vai? - Perguntei, ainda meio dormindo.
- Vou para a maternidade. - Ela disse, tranquila- o nenê vai nascer.
Como assim? Pulei da cama. Ela estava aparentemente calma, o sorriso ligeiramente ansioso nos lábios, como se estivesse para ganhar um grande presente certo. Me arrumei rapidamente, não perderia aquele momento por nada. Ela e o marido estavam morando em nossa casa e o bebê era praticamente comunitário, todo mundo estava esperando aquele dia, mas achávamos que ainda demoraria algum tempo. Fomos correndo para o hospital, ansiosos. Eu, minha mãe, meu cunhado e minha irmã, com sua barriga.
Esperamos algum tempo. A Claudia estava tossindo e a dor era intensa, mas nada de dilatação, eu já estava ficando angustiada. Ela também, certamente. Então ela entrou na sala de cirurgia, para uma cesariana. Aguardamos, ansiosos, na sala de espera, eu e o Adalcir, meu cunhado.
Pouco tempo depois ouvimos um choro muito forte, bravo. Imaginei que fosse alguma criança de uns cinco, seis anos, com a perna quebrada, entrando no hospital para fazer alguma cirurgia ou coisa parecida. Era um hospital pequeno, não exclusivamente maternidade, e não havia mais nenhuma parturiente, nenhum recém-nascido. Logo depois o médico abriu a porta, com um embrulhinho no colo.
- Aqui está a moça.
Não acreditei. Tinha sido muito rápido. Então o choro forte que eu tinha ouvido era realmente daquela coisinha? Nos levantamos para ver o embrulhinho. O rostinho inchado e ainda sujo do parto, um olhinho aberto e outro fechado, o cabelinho molhado, grudadinho na cabeça, muito cabelo, liso e bem preto. A boquinha bem desenhadinha, sobrancelhas marcadas, olhos puxados...praticamente uma xerox da minha irmã.
- Não se preocupe - o médico consolou meu cunhado - o próximo vai sair parecido com você, porque essa aqui é a cara da mãe.
Nos primeiros dias ela teve icterícia por incompatibilidade ABO, teve que tirar sangue e a enfermeira pela primeira vez viu uma recém-nascida de três dias golpeá-la tão fortemente com os pés a ponto de impedir que ela lhe espetasse a pele.
Muito forte, bravinha e com uma coordenação motora muito desenvolvida para a sua idade, a Raíssa foi um bebê que nos surpreendia diariamente. Aos quatro meses já se sentava sozinha, os dentes demoraram a nascer, aparecendo apenas depois do primeiro ano, mas muito antes disso ela comia de tudo, mastigava com as gengivas mesmo e não estava nem aí.
Quando meu pai morreu, às vésperas de ela completar um ano, foi sua alegria que manteve a casa, um furacãozinho que não nos deixou desabar. Os cabelos lisos e pretos deram lugar a cachinhos acobreados e até pouco tempo ela ainda tinha jeitinho de bebê. Mas largou a chupeta, tirou as fraldas, aprendeu a falar certo e, para minha surpresa, dia desses recebi fotos recentes dela (uma delas abre este post. As outras fotos do post são mais antigas). Eu a vi há não muito tempo, em Fevereiro, mas ela já mudou bastante. Está parecendo uma criança, não é mais um bebê.
O que acontecer de agora para diante formará lembranças ainda mais nítidas em sua mente do que o que aconteceu antes (eu, por exemplo, fiz uma cirurgia cardíaca aos quatro anos e me lembro perfeitamente até hoje). Embora eu tenha certeza de que ela jamais se esquecerá do priminho, Juninho (que agora está mais perto, em Maringá), dos tios, da avó que ela tanto ama, das nossas brincadeiras e do gatinho Nermal, que a adorava.
E ela vai ser sempre a minha bonequinha, mesmo depois, quando estiver maior do que eu, mesmo depois que meus filhos nascerem, não importa quantas outras bonequinhas eu venha a ter no decorrer da minha existência, ela vai sempre ter o lugarzinho mais do que reservado no meu coração e em minha vida, quero sempre ter aquele abraço apertado que só eu sei o quanto me faz falta.
E a Claudia estava certa, naquela manhã de trinta de Abril de 2001 ganhamos o maior presente que alguém poderia esperar. E tenho certeza de que esse presentinho ambulante ainda nos trará muita felicidade, sendo feliz, alegre e cheia de saúde e energia, cada dia mais. É isso o que eu desejo, bonequinha, e quero que saiba que a titia pensa em você todos os dias, com o carinho e a saudade que tempo nenhum poderá apagar. Você está crescendo. Eu também.


Eu e minha bonequinha, em 2001:


Minha menina linda, que saudade de você...

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