Saturday, April 16, 2005

Manhê, eu tô no Rio!!!


Davison Lampert

Não gosto de altura. Não sou das melhores apreciadoras de paisagens (ao contrário do meu digníssimo esposo). Não fui ao corcovado, nem ao Pão de Açúcar (que a partir de agora chamarei de Pão d'assucar, após vê-lo com essa denominação em um mapa pré-histórico do Rio de Janeiro). Conheci alguns museus históricos e mergulhei, encantada, em cada objeto exposto (aprecio melhor registros históricos do que paisagens). Aos poucos aprendi a apreciar as paisagens, desde que eu estivesse bem firme no chão, ao nível do mar. O mar.

Passo horas observando o mar. Não gosto muito dele, nem ele de mim. Tenho para mim que ele não gosta de pessoa nenhuma, apenas as atura e de vez em quando externa sua fúria contra nós. Gosto de olhar os bichinhos minúsculos que vivem sob a areia ou sobre ela. Para mim o microcosmo é muito mais interessante do que o macro.

Eu gosto deste lugar. Apesar da violência que a gente vê nos jornais, da antipatia da moça da loja, da miséria empoleirada nos morros ou espalhada entre casas não acabadas, amontoados de blocos cor de tijolo, tortos, com telhado improvisado e roupas de criança penduradas em varais igualmente improvisados.

Apesar das mulheres mendigando com bebês nos braços que me fazem crer piamente que, crescida aquela criança, elas tratarão de conceber outras, apenas para garantir sua fonte de renda torta e povoar esta cidade de pessoas sem cuidado, sem esperança, sem futuro. A pesar delas e apesar de tantas outras coisas ruins, eu gosto deste lugar.

Porque o que tem de ruim aqui a gente encontra em muitas outras cidades deste país, mas o que tem de bom neste lugar, dificilmente se encontra, reunido, em outra cidade. O povo aberto e simpático (desde que não estejam trabalhando), as belezas naturais, os museus, os amigos, a história, as manifestações culturais, os livros, as livrarias, os escritores, os eventos, as peças, os mistérios... Eu tenho a nítida impressão de que esta cidade é feita para ser escavada. Como se por baixo desta superfície houvesse ainda muito a se descobrir.

Embora São Paulo tenha melhores shoppings e parques, o Rio tem aquele algo mais que a gente nem sabe o que é, mas nos faz fascinados ao primeiro olhar. Porque é lindo, eu sei, mas não só por isso. Embora eu ache, sinceramente, que qualquer lugar tem essa mágica quando a gente se dispõe a olhar e descobrir o que se esconde sob sua máscara. Mas o Rio...eu nem sei dizer, hoje passei por algumas ruas no centro, impregnadas de história, discretamente, sob a fachada da modernidade. Estreitas, me levaram a caminhos trilhados por homens de bengala e bigodes e mulheres de saias longas e cabelos arrumados.

Vi charretes, vi carros à manivela, tudo dentro dos meus olhos. Senti o ar fresco e pude ver a paisagem que os prédios enormes hoje escondem. Sim, o Rio de Janeiro sempre foi lindo. Era mais, mas não deixou de ser. Vi um rapaz de chapéu branco, vi uma moça de sombrinha. Vi uma poça d'água na beira da rua e cavalos trotando perto dela. As paredes estavam impregnadas de história. As ruas, calçadas, sob uma camada grossa de poeira contemporânea, escondem o passado, que sutilmente se mostra a um discreto soprar do vento.

O Rio de Janeiro é um baú escondido no porão de alguém. Eu sou curiosa, do tipo de ama cartas antigas, amareladas, viola a correspondência alheia sem perceber, mergulha em fotos pré-históricas e passa horas imaginando como era a vida daquelas pessoas, se eram felizes ou tristes, só pelo olhar.

O Rio de Janeiro é um baú de fotos antigas, é uma caixa de cartas de muitos séculos, uma série de documentos históricos, anotações da história política e cultural deste país. É um velho baú escondido, coberto por coisas novas, brilhantes e outras que ninguém quer ver. Esquecido, abandonado, largado às traças, para se desfazer lentamente. Mas resiste. Esta cidade é fantástica, que me desculpem as outras.

Não conheço tanta coisa deste país e conheci muitas cidades fantásticas, todas têm uma história. Outras, exclusivamente históricas, infelizmente ainda não conheço. Mas no Rio de Janeiro tudo é muito óbvio, o tempo, a passagem dele, o contraste entre a miséria e a opulência, entre a beleza e a sujeira. Tudo neste lugar faz pensar, faz repensar. Tudo me faz querer saber pelo menos um pouco mais.





PS: Dave quer conhecer o Corcovado e o Pão d'assucar...temo que terei de enfrentar essas terríveis alturas para ver de cima uma paisagem que estou cansada de olhar em fotos, filmes, etc... E aquele bondinho me assusta.

Sombra, água fresca e algumas garrafas da água fresca dos outros espalhadas pelo chão...


Davison Lampert

* Fotos: Davison Lampert

PS2: Para quem ainda não viu, tem crônica nova no Crônica do Dia. Link no post anterior :)

Ps3: As respostas aos comentários do post do aniversário de nove meses de casamento estão logo abaixo do post anterior :)

PS4: Já que a coloquei no título deste post, quero mandar um beijão para a minha mãe, que está dodói, mas que, se tudo der certo, estará comigo aqui na semana que vem :)