Monday, June 18, 2007

Divagando, no gerúndio.


Acabei não escrevendo a crônica da semana passada, na Paradoxo. O pior é que eu tinha o que escrever, mas descobri onde estava o meu maior problema: organizar os horários. Em outras palavras, dormir mais cedo, acordar mais cedo. Isso faz toda a diferença, ao menos para mim. Fico infinitamente mais produtiva e com maior capacidade de organizar meu dia e cumprir todas as milhares de tarefas que escrevo na agenda antes de dormir e reviso assim que acordo.

A despeito da minha capacidade de ficar acordada feito coruja, dormir é sempre uma opção mais saudável. Para o bem da minha glândula pineal (ela fica meio irritada quando não consegue secretar melatonina decentemente), o sono da noite é indispensável. Não, não adianta ir dormir de madrugada e achar que será tudo normal. Deixo para dormir de madrugada só quando for obrigada, no caso de ter de trabalhar até tarde.

Quinta-feira tenho o bendito exame prático. Estou ficando traumatizada com aquilo, espero, sinceramente, que desta vez seja em outro lugar, com outros examinadores, e que ninguém me encha a paciência com a coisa do nome. Mas pretendo não me incomodar, não ficar nervosa nem se Hitler sentar no banco do carona para avaliar meu exame.

E eu tenho de passar na quinta por uma série de razões, primeiro, preciso dessa carteira com uma certa urgência e já sei dirigir suficientemente bem para merecê-la, segundo, se continuar pagando novas taxas de teste, vou à falência, porque tenho gasto mais do que ganho trabalhando (ou conseguido menos trabalho do que gostaria), terceiro, preciso mudar de assunto na coluna, que essa conversa de aulas de direção sem fim deve estar cansando os leitores.

O pior de tudo, continuando as lamúrias (a quem não me conhece: eu sou uma criatura dramática, fico imensamente feliz contando as coisas com adjetivos e superlativos totalmente desnecessários), é que o clima nesta cidade não tem ajudado.

Eu já me adaptei, eu já me adaptei, adoro Porto Alegre e estou bem feliz morando aqui, mas nunca havia passado por um inverno desses. Muito frio, muito frio, e quando o frio deu uma trégua, começou a chuva. Uma semana de chuva, e diz o Weather Channel, há possibilidade de chuva de hoje à noite até sexta-feira, certeza de pancadas de chuva sábado, domingo, segunda e terça e possibilidade de mais chuva na quarta. Entenderam? Está chovendo há uma semana e há previsão de chuva para esta semana inteira e metade da semana que vem! Como ouvi uma senhora comentar no ônibus: "vamos virar sapo!"

Particularmente, não me agrada a idéia de me transformar em um anfíbio, embora eu os ache muito bonitinhos. Não tenho nem medo nem nojo de sapos, rãs e afins (afins são bichinhos bem interessantes, por sinal), mas eu teria uma certa dificuldade de digitar e isso me faria falta.

Pois bem, hoje a chuva cessou (por pouco tempo, interrompe o site do Weather Channel) e o frio se instalou de forma nada compassiva. Diz o Weather Channel (sempre ele, o meu horóscopo, que checo todos os dias antes de sair de casa) que está doze graus. Não acredito. Eu sinto cinco. E ele diz que há sensação térmica de doze. Mentira.

O site do Terra diz que está onze graus na rua. Já disse, eu sinto cinco, eu acredito em cinco, posso até engolir que há sensação de seis ou sete, mas onze, não. O Weather Channel diz que estamos com 77% de umidade do ar, o Terra fala em 94%, faz mais sentido. É como se eu estivesse bem pertinho do freezer. E sim, sou exagerada, porque sei que quando saio e caminho, caminho, caminho (gosto de ir à pé em todos os lugares), logo começo a sentir calor.

Ok, essa última afirmação fez com que eu me sentisse uma alienígena, ainda mais sabendo que não era minha intenção fazer um post confuso, sem o menor foco narrativo. Aliás, uma das melhores coisas desse blog é justamente isso, me permite a verborragia (eu odeio essa palavra, não pelo seu significado, mas pela sonoridade. É um vocábulo feio, muito feio. Quase tão feio quanto a palavra "vocábulo") sem pretensões.

Falando nisso, ando com saudade da língua portuguesa. Ando em regime de extrema contenção de despesas e acabei eliminando todas as revistas desnecessárias, e, depois, todas as revistas necessárias. Há séculos não compro "Revista Língua Portuguesa", "Discutindo Literatura", "Discutindo a Língua Portuguesa", "Entrelivros" e outras que eu comprava escondido para não parecer uma chata de sandálias, mas que me deixam imensamente feliz com suas reportagens, inclusive quando me fazem ficar muito brava com os linguistas imbecis que de vez em quando escrevem uma bobagem ou outra por ali.

A parte mais legal dessas revistas é que você nunca sabe onde elas começam e onde terminam, parecem feitas em ordem totalmente caótica, você compra o número 22 na banca e no mês seguinte vai, crente de que conseguirá o número 23 e quando chega em casa, percebe que comprou o número 17. Nunca consegui comprar duas revistas de numeração consecutiva. Compro como se montasse um quebra-cabeça. Mas como suas reportagens costumam ser anacrônicas, não faz a menor diferença.

Eu gosto de revistas estranhas, há tempos olho as revistas femininas (porque há uma futilidade intrínseca em meu ser) apenas na internet, na casa da minha mãe ou em salas de espera, raramente as compro, a revista mais normal que entra nesta casa é a Super Interessante. Há tempos o Davison comprou a "Mundo Estranho", que faz jus ao nome. São informações absolutamente interessantes que não fariam a menor diferença se você continuasse sem saber, mas é uma leitura divertida. Sem contar revistas tipo "saúde", "viva saúde", "vida e saúde" e derivadas. Não temos muitas revistas de gente normal.

Arrumando a casa, descobri uma revista de fofoca: "A vida secreta das estrelas", da Scientific American. Estão lá os corpos celestes, tranquilos em sua vidinha pacata no infinito, e os chatos paparazzi tirando fotos e comentando sobre seu ciclo vital e demais detalhes íntimos. Gente desagradável.

Encontrei também uma edição do início da década da revista "Mad", que nunca mais vi mais gorda. Eu gosto de cartuns, mas sou extremamente chata para humor, tenho um humor ranzinza, que só se anima com tiradas realmente inteligentes. Encontrei algumas ali, e fiquei triste em saber, por fontes seguras, que aquele foi um dos últimos números interessantes da Mad, que depois se suicidou.

Comprei no Brique da Redenção (que é uma feirinha feita em um parque no centro da cidade, para onde toda a humanidade de Porto Alegre se desloca no domingo, e onde também funciona uma feira de vegetais orgânicos no sábado pela manhã) duas edições pré-históricas da revista Cruzeiro, da década de cinquenta, se não me engano, estão ali na minha gaveta, mas estou com preguiça de pegar para confirmar. Eis outra característica de minha personalidade (não a preguiça!): o apreço por coisas antigas, por registros históricos. Adoro museus, adoro estudar história, pesquisar a origem das coisas, ver como era a vida antes de eu pensar em deixar de ser uma poeirinha cósmica e vir para este mundo.

Quando eu era uma criança cheia de dúvidas e ainda achava que realmente existiam respostas, perguntei à minha mãe o que eu era antes de entrar na barriga dela, antes de me formar lá dentro. Onde eu estava? Ela me respondeu que eu estava no céu, era uma poeirinha cósmica. Estranhamente, a resposta me satisfez. Por anos eu acreditei que era uma espécie de purpurina (ou glitter, uma purpurina em pó, que gruda ad infinitum na pele e nas roupas) espacial. Isso me deixava feliz, e acho que construí uma parte de minha personalidade em cima do fato de ser, em essência, uma poeira cintilante. Por isso devemos tomar muito cuidado com o que dizemos às crianças.

No fundo, no fundo, devo admitir, ainda acredito, mais ou menos, nessa história de poeira cósmica, e é bem provável que a repasse aos meus filhos, se eu os tiver. Sei que foi apenas uma das muitas respostas criativas que minha mãe inventava para que eu parasse de perguntar sem ficar frustrada, mas talvez, quem sabe, faça sentido. Por outro lado, além de ridículo, é brega me imaginar uma poerinha cósmica, antes de me tornar um espírito, habitando um diminuto corpo em formação intra-uterina.

Não acredito em reencarnação porque, entre outras razões, inclusive as bíblicas, essa teoria contraria a teoria da poeirinha cósmica, a menos que se inventasse a poeirinha cósmica de segunda mão. A poeirinha cósmica é o pré-vida, e um espírito não volta à fase de poeirinha cósmica, portanto, não pode retornar à vida. Simples assim.

A teoria da poeirinha cósmica é muito extensa e talvez um dia eu escreva uma enciclopédia sobre isso. Mas ela é muito séria e eu comecei a formulá-la em torno dos três, quatro anos, quando tive meu primeiro contato com ela através da resposta da minha mãe. Portanto, são vinte e quatro anos de elocubrações e pesquisas incansáveis, que me trouxeram meus primeiros fios de cabelo branco este ano e quase me fizeram voltar à tintura, ao que resisti bravamente.

Provavelmente retorno apenas na quinta-feira, tempo suficiente para que vocês leiam esse texto assustadoramente extenso e percebam que eu deveria ser proibida de escrever quando acordo de bom humor.

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