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Vira e mexe alguém reclama de ter passado por mim e eu não ter cumprimentado. Aconteceu novamente. Eu tenho 0,25 de astigmatismo, o que não dá margem a desculpa alguma. Por anos e anos tentei entender o que raios acontecia, qual era esse problema que não me deixava ver as pessoas na rua. Depois de muito pensar, percebi que não é um problema oftálmico, não tem absolutamente nada de errado com meus olhos.
Na verdade, eu realmente não vejo ninguém, mas dizer isso faz com que a pessoa se sinta pouco importante, o que não é verdade. Cheguei a passar pelo meu irmão certa vez no Shopping e não o teria visto se ele não tivesse me chamado. O pior é que às vezes olho na direção da pessoa e ela tem certeza que eu a vi, depois fico sabendo por terceiros que ela ficou chateada porque eu não a cumprimentei, e fingi que não vi. Não é verdade. Eu não vejo mesmo, não vejo ninguém, ando na rua olhando para dentro, e não vejo nada além de minha própria imaginação.
Muitas vezes tropeço, outras vezes me perco, passo do meu destino, distraída. Caminho olhando para dentro, e nada vejo do lado de fora. É diferente de quando estou fazendo alguma coisa, quando estou trabalhando ou organizando coisas, é diferente de quando estou concentrada. Passeando na rua ou no shopping, indo do ponto A ao ponto B sem nada que me prenda no caminho, eu só olho para dentro. É um hábito, é um vício, um estrabismo emocional que não me permite ficar longe de minha mente e caminho sempre como se não estivesse ali, quase uma meditação, eu e meu mundo, em diálogo, enquanto o chão se move como esteira sob mim.
Mas não se preocupem, há um dispositivo de segurança no meu cérebro, implantado desde cedo por minha mãe, que desliga o mundo sempre que chego em uma esquina, para que eu preste atenção nos carros e no semáforo antes de atravessar. No entanto, se você me encontrar na faixa de pedestres, esqueça, também não vejo ninguém ali, caminho cuidando os carros e o sinal. Se eu já te encontrei na rua e te cumprimentei, bem feliz, você viu uma exceção, um momento raro em que eu, mesmo deslizando por lugares que ninguém mais vê, estava presente em meu corpo.
Vira e mexe alguém reclama de ter passado por mim e eu não ter cumprimentado. Aconteceu novamente. Eu tenho 0,25 de astigmatismo, o que não dá margem a desculpa alguma. Por anos e anos tentei entender o que raios acontecia, qual era esse problema que não me deixava ver as pessoas na rua. Depois de muito pensar, percebi que não é um problema oftálmico, não tem absolutamente nada de errado com meus olhos.
Na verdade, eu realmente não vejo ninguém, mas dizer isso faz com que a pessoa se sinta pouco importante, o que não é verdade. Cheguei a passar pelo meu irmão certa vez no Shopping e não o teria visto se ele não tivesse me chamado. O pior é que às vezes olho na direção da pessoa e ela tem certeza que eu a vi, depois fico sabendo por terceiros que ela ficou chateada porque eu não a cumprimentei, e fingi que não vi. Não é verdade. Eu não vejo mesmo, não vejo ninguém, ando na rua olhando para dentro, e não vejo nada além de minha própria imaginação.
Muitas vezes tropeço, outras vezes me perco, passo do meu destino, distraída. Caminho olhando para dentro, e nada vejo do lado de fora. É diferente de quando estou fazendo alguma coisa, quando estou trabalhando ou organizando coisas, é diferente de quando estou concentrada. Passeando na rua ou no shopping, indo do ponto A ao ponto B sem nada que me prenda no caminho, eu só olho para dentro. É um hábito, é um vício, um estrabismo emocional que não me permite ficar longe de minha mente e caminho sempre como se não estivesse ali, quase uma meditação, eu e meu mundo, em diálogo, enquanto o chão se move como esteira sob mim.
Mas não se preocupem, há um dispositivo de segurança no meu cérebro, implantado desde cedo por minha mãe, que desliga o mundo sempre que chego em uma esquina, para que eu preste atenção nos carros e no semáforo antes de atravessar. No entanto, se você me encontrar na faixa de pedestres, esqueça, também não vejo ninguém ali, caminho cuidando os carros e o sinal. Se eu já te encontrei na rua e te cumprimentei, bem feliz, você viu uma exceção, um momento raro em que eu, mesmo deslizando por lugares que ninguém mais vê, estava presente em meu corpo.

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