Monday, May 08, 2006

Literatura não é fofoca

Vez ou outra a gente mistura situações que viveu em algum texto, coloca pedaços de experiências alheias no meio de coisas totalmente inventadas por nossa mente fértil. Todos os personagens têm algo do autor, mas isso não quer dizer que todos os textos sejam auto-biográficos. Isso é de uma ignorância atroz. Eu posso escrever sobre um assassinato, por exemplo, mas isso não quer dizer que eu tenha cometido ou queira cometer um. Assim eu escrevia altas cenas de sexo enquanto ainda era virgem. Existe uma coisa muito incrível chamada imaginação que, quando bem direcionada, traz ótimos frutos.

Digo isso porque da mesma forma que me irritava alguém, quando via um desenho meu, perguntar: "Quem é? Ah, nem vem, deve ser alguém", me irrita até os ossos escrever algo completamente inventado e ver gente tentando decodificar "ah, isso deve ser por causa do fulano", "com certeza ela está falando de não sei quem" e coisa parecida.

Talvez por isso eu tenha limitado bastante minha produção literária neste blog. A bem da verdade não é aqui que eu posto alguma produção literária. Mas sempre acho que fica bem claro quando é um texto pessoal e quando é algo mais elaborado. Entretanto, nem todo mundo tem atividade cerebral suficiente para compreender isso. No final das contas, acabo evitando postar contos ou narrativas de ficção mais longas.

Tenho calafrios, portanto, ao ver alguém tentando desvendar segredos através de textos literários de outra pessoa. Acho totalmente imbecil. Não que em alguns casos isso não se aplique, mas partir desse princípio te faz um fofoqueiro maledicente em potencial. É bom estar bem ciente disso.

Porque as pessoas hoje, dessa geração msn, não sabem ler textos, simplesmente. Acham que tudo é um imenso diário, algumas nunca viram um livro na vida.

Colabora com isso o fato de alguns escritores fazerem de seus textos extensões de sua vida. Por exemplo: o cara vive na noite, bebendo, fumando, se drogando e se prostituindo e, coincidentemente, todos os seus personagens são exatamente assim. Mas não se pode tomar parte pelo todo. Como eu disse, se você for partir desse princípio corre o sério risco de quebrar a cara em diversos pedacinhos.

Melhor é ler sempre achando que está diante de mera ficção, às vezes é baseada em fatos reais, maximizados, com trechos totalmente inventados para ficar mais interessante ou melhorar o final, mas ficção. Sempre fica aquele gostinho bom de "será?" Lá no fundo, sem que jamais se verbalize a pergunta. O que menos importa é a razão do texto ter sido escrito, na minha opinião.

No entanto, se você for uma fofoqueira de plantão, ávida por "novidades" para comentar com uma segunda fofoqueira de plantão ou mesmo uma namorada ciumenta lendo os textos da ex, tudo bem, não vou exigir que você pense.

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