De frente

Passamos o final de semana em Granela. Dave trabalhou na terça (passada, que foi feriado) para folgar na sexta e viajamos. Na volta, passei dois dias na correria para refazer documentos e entregar currículos. Também comecei a fazer aulas da auto-escola (finally!!!), por isso só tive tempo de entrar na net para escrever alguma coisa ontem. Respondi alguns emails e não deu tempo para postar nada. Hoje minha entrada na internet é obrigatória. Vou terminar a coluna e deixar umas coisas mais ou menos prontas. Escrevi um montão na fila para a segunda via da identidade (uma hora e meia, duas horas), mais um montão na fila para a carteira de trabalho (uma hora) e um pouquinho na fila do banco (vinte minutos), além de mais um pouco na lotação (uma hora, mais ou menos, contando ida e volta). Ao menos o stress foi produtivo :)
As costas, moídas, reclamam. Confesso que senti um desespero por não poder entrar na internet durante esse tempo. O vício. Tiramos algumas fotos em Granela (muito poucas, já que só fez um dia de sol) e dessa vez não tiramos a clássica autofoto no pedalinho de cisne do Lago Negro, já tradicional, só muda a roupa e o cabelo. Desta vez inovamos, tiramos fotos à noite, na rua principal, aquela coberta (argh, me fugiu o nome!!), tiramos fotos da pousada, super simpática, bonita e uma das mais baratas que encontramos. Infelizmente ela não é muito fotogênica.
Cada vez mais me convenço de que sou um ser esquisito. Sei que tenho muito o que crescer (muito mesmo), que com o tempo ficarei mais tranquila, aprenderei a conviver melhor com as pessoas (ou desistirei delas de uma vez). Sou uma "alma livre", uma criatura selvagem (que medo), com pouco ou nenhum interesse em se adaptar a este mundo, vivendo a vida do jeito que acho mais correto, sem me importar com a definição que os outros dão do que é a vida. Por isso eu visto o que eu quero, falo o que eu quero, faço o que eu quero. Mas é claro, sendo uma pessoa em total controle de suas faculdades mentais (que têm pós-graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado mental), não corro o risco de virar uma maluca sociopata. Mas que Porto Alegre não me entende, não me entende mesmo.
Andei segunda e terça no centro da cidade. Estava ainda mais assustador do que eu me lembrava que era. Nem tinha barulho além do normal (do normal do centro de Porto Alegre, que é anormal de qualquer maneira...risos...), mas a multidão me apavorava. Era muuuuuuita gente. Sim, eu sou do tipo que se apavora com multidão. Acho assustador. Dá vontade de sair correndo, de encontrar um canto isolado qualquer, de me esconder no primeiro buraco. Não chega a ser uma agorafobia, mas ver tanta gente me faz ter a sensação de que a qualquer momento serei tragada pelo gênero humano.
E também, na verdade, ver tanta gente me faz ter a exata noção de que eu sou apenas mais uma. Mais uma pessoa, como qualquer outra. Do mesmo tamanho das outras, do mesmo formato que as outras, talvez com um pouco mais de cabelo. Igual. Justo eu, que me sinto tão única, tão especial, tão diferente, sou exatamente igual a qualquer um. E isso me faz tão pouco importante que eu prefiro nem pensar, se quiser continuar vivendo feliz e saltitante. Porque cada uma daquelas pessoas se sente única, especial, diferente. Mas são todos iguais. Os mesmos sentimentos, as mesmas angústias, escolhas diferentes, vidas extremamente complexas, histórias que eu jamais conseguirei conhecer.
Justo eu, que gosto tanto de ouvir histórias, de ver gente falando da vida, contando como conheceu o marido, como terminou com a namorada, a história de vida, as perdas, as dores, as alegrias... aquelas histórias passam por mim, trancadas naqueles corpos, e eu não tenho acesso a nenhuma delas. Nenhuma. Dá um pequeno desespero saber que todas aquelas pessoas que passam por mim são histórias que ficarão sem ser contadas, coisas que eu jamais saberei, que ninguém vai me dizer. E o conhecimento ao qual tenho acesso é tão mínimo diante da imensidão desse mundo e de tanta informação existente, que eu sou uma formiguinha carregando um minúsculo grão de açúcar, como se fosse grande coisa.
Mas a vida não transcorre apenas em uma nível macro, universal, abrangente. Ela é, principalmente, os detalhes. O microcosmo, o mundinho, a casa, a família, as idéias, o indivíduo, com seu cérebro. Aí sim, ele é importante. Visto de perto, cada um é único, especial e diferente. E é assim que deve se sentir se quiser viver bem, microcosmicamente. Ficar divagando sobre nossa pouca importância só nos imobiliza diante da vida, do tempo e de outras coisas que não param.
Infelizmente não consigo compreender a multidão, que se faz tão igual, ignorando as particularidades que nos fazem únicos, que fazem com que sejamos tão individualizados. A multidão me confunde, massifica, esconde. Não dá tempo de olhar o outro no meio da multidão, não dá tempo de olhar para dentro da gente mesmo enquanto há agitação e barulho. Talvez por isso muita gente nunca pare: para não olhar para dentro. Mas a multidão não pára. Mudam os rostos, reconheço alguns, ninguém fala comigo, ninguém esclarece nada. Meu maior problema com a multidão é saber que ela passa por mim e não volta para contar a história *(1).
*(1) Se voltasse, seria ainda mais assustador. Teria que formar uma fila indiana e chamar um por um. :)
Ps: Foto de abertura: Eu precisava de uma foto de frente. Ia tirar foto de longe e depois recortar o rosto. Posicionei a câmera na janela enquanto o gatinho tomava banho ao meu lado. Liguei o timer e fiquei esperando, imóvel, dez segundos para que ela batesse a foto. Como era sem flash, tinha que esperar ainda mais dois segundos, sem me mexer, para que a imagem não ficasse tremida. Quando baixei no computador, percebi que não estava sozinha nessa espera. O mais incrível é que é sempre uma dificuldade total para convencer esse gato a parar, de olhos abertos, para tirar uma foto sem flash. Gatos só fazem o que queremos quando eles mesmos querem...risos...
Ps2: Hoje é quarta, dia de coluna na Paradoxo. Aí vai o link. :)
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Comentários (o haloscan apaga os comentários a cada quatro meses e como já perdi os de alguns posts anteriores, prefiro colá-los aqui, antes que sejam deletados):

Passamos o final de semana em Granela. Dave trabalhou na terça (passada, que foi feriado) para folgar na sexta e viajamos. Na volta, passei dois dias na correria para refazer documentos e entregar currículos. Também comecei a fazer aulas da auto-escola (finally!!!), por isso só tive tempo de entrar na net para escrever alguma coisa ontem. Respondi alguns emails e não deu tempo para postar nada. Hoje minha entrada na internet é obrigatória. Vou terminar a coluna e deixar umas coisas mais ou menos prontas. Escrevi um montão na fila para a segunda via da identidade (uma hora e meia, duas horas), mais um montão na fila para a carteira de trabalho (uma hora) e um pouquinho na fila do banco (vinte minutos), além de mais um pouco na lotação (uma hora, mais ou menos, contando ida e volta). Ao menos o stress foi produtivo :)
As costas, moídas, reclamam. Confesso que senti um desespero por não poder entrar na internet durante esse tempo. O vício. Tiramos algumas fotos em Granela (muito poucas, já que só fez um dia de sol) e dessa vez não tiramos a clássica autofoto no pedalinho de cisne do Lago Negro, já tradicional, só muda a roupa e o cabelo. Desta vez inovamos, tiramos fotos à noite, na rua principal, aquela coberta (argh, me fugiu o nome!!), tiramos fotos da pousada, super simpática, bonita e uma das mais baratas que encontramos. Infelizmente ela não é muito fotogênica.
Cada vez mais me convenço de que sou um ser esquisito. Sei que tenho muito o que crescer (muito mesmo), que com o tempo ficarei mais tranquila, aprenderei a conviver melhor com as pessoas (ou desistirei delas de uma vez). Sou uma "alma livre", uma criatura selvagem (que medo), com pouco ou nenhum interesse em se adaptar a este mundo, vivendo a vida do jeito que acho mais correto, sem me importar com a definição que os outros dão do que é a vida. Por isso eu visto o que eu quero, falo o que eu quero, faço o que eu quero. Mas é claro, sendo uma pessoa em total controle de suas faculdades mentais (que têm pós-graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado mental), não corro o risco de virar uma maluca sociopata. Mas que Porto Alegre não me entende, não me entende mesmo.
Andei segunda e terça no centro da cidade. Estava ainda mais assustador do que eu me lembrava que era. Nem tinha barulho além do normal (do normal do centro de Porto Alegre, que é anormal de qualquer maneira...risos...), mas a multidão me apavorava. Era muuuuuuita gente. Sim, eu sou do tipo que se apavora com multidão. Acho assustador. Dá vontade de sair correndo, de encontrar um canto isolado qualquer, de me esconder no primeiro buraco. Não chega a ser uma agorafobia, mas ver tanta gente me faz ter a sensação de que a qualquer momento serei tragada pelo gênero humano.
E também, na verdade, ver tanta gente me faz ter a exata noção de que eu sou apenas mais uma. Mais uma pessoa, como qualquer outra. Do mesmo tamanho das outras, do mesmo formato que as outras, talvez com um pouco mais de cabelo. Igual. Justo eu, que me sinto tão única, tão especial, tão diferente, sou exatamente igual a qualquer um. E isso me faz tão pouco importante que eu prefiro nem pensar, se quiser continuar vivendo feliz e saltitante. Porque cada uma daquelas pessoas se sente única, especial, diferente. Mas são todos iguais. Os mesmos sentimentos, as mesmas angústias, escolhas diferentes, vidas extremamente complexas, histórias que eu jamais conseguirei conhecer.
Justo eu, que gosto tanto de ouvir histórias, de ver gente falando da vida, contando como conheceu o marido, como terminou com a namorada, a história de vida, as perdas, as dores, as alegrias... aquelas histórias passam por mim, trancadas naqueles corpos, e eu não tenho acesso a nenhuma delas. Nenhuma. Dá um pequeno desespero saber que todas aquelas pessoas que passam por mim são histórias que ficarão sem ser contadas, coisas que eu jamais saberei, que ninguém vai me dizer. E o conhecimento ao qual tenho acesso é tão mínimo diante da imensidão desse mundo e de tanta informação existente, que eu sou uma formiguinha carregando um minúsculo grão de açúcar, como se fosse grande coisa.
Mas a vida não transcorre apenas em uma nível macro, universal, abrangente. Ela é, principalmente, os detalhes. O microcosmo, o mundinho, a casa, a família, as idéias, o indivíduo, com seu cérebro. Aí sim, ele é importante. Visto de perto, cada um é único, especial e diferente. E é assim que deve se sentir se quiser viver bem, microcosmicamente. Ficar divagando sobre nossa pouca importância só nos imobiliza diante da vida, do tempo e de outras coisas que não param.
Infelizmente não consigo compreender a multidão, que se faz tão igual, ignorando as particularidades que nos fazem únicos, que fazem com que sejamos tão individualizados. A multidão me confunde, massifica, esconde. Não dá tempo de olhar o outro no meio da multidão, não dá tempo de olhar para dentro da gente mesmo enquanto há agitação e barulho. Talvez por isso muita gente nunca pare: para não olhar para dentro. Mas a multidão não pára. Mudam os rostos, reconheço alguns, ninguém fala comigo, ninguém esclarece nada. Meu maior problema com a multidão é saber que ela passa por mim e não volta para contar a história *(1).
*(1) Se voltasse, seria ainda mais assustador. Teria que formar uma fila indiana e chamar um por um. :)
Ps: Foto de abertura: Eu precisava de uma foto de frente. Ia tirar foto de longe e depois recortar o rosto. Posicionei a câmera na janela enquanto o gatinho tomava banho ao meu lado. Liguei o timer e fiquei esperando, imóvel, dez segundos para que ela batesse a foto. Como era sem flash, tinha que esperar ainda mais dois segundos, sem me mexer, para que a imagem não ficasse tremida. Quando baixei no computador, percebi que não estava sozinha nessa espera. O mais incrível é que é sempre uma dificuldade total para convencer esse gato a parar, de olhos abertos, para tirar uma foto sem flash. Gatos só fazem o que queremos quando eles mesmos querem...risos...
Ps2: Hoje é quarta, dia de coluna na Paradoxo. Aí vai o link. :)
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Comentários (o haloscan apaga os comentários a cada quatro meses e como já perdi os de alguns posts anteriores, prefiro colá-los aqui, antes que sejam deletados):

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