Esclarecendo- Conversa franca e aberta sobre depressão, experiência pessoal e Deus.
Dois comentários, do Túlio e da Cath, me fizeram parar para escrever este texto, mesmo com a pilha de louças para lavar e um banho urgente para tomar...risos... Primeiro, Cath, guria desaparecida! Eu estava com saudade. E o Túlio sumiu até do Orkut! Fiquei preocupada. Tenho vontade de voltar a responder os comentários, mas essa vontade esbarra no tempo, ou melhor, na falta dele.
O comentário da Cath: "Olha... (como eu sou palpiteira!). Se você escrevia textos depressivos aos 15, isso nao significava necessariamente que voce estava em depressão. A minha experiência com depressao é que nada se faz quando ela esta no comando. Bão, mas a minha experiência nao é representativa. O que sei é que é muito bom que voce nunca tenha parado de escrever."
Cath, eu não escrevia textos depressivos aos quinze anos...risos...eles vieram, anos depois, como consequência do meu estado emocional. E realmente, não se faz nada quando ela está no comando, mas estranhamente, escrever é uma das exceções. Tanto que muitos escritores que sofriam de depressão eram muito mais produtivos quando estavam em crise. Acredito que a depressão, enquanto entidade (...risos...) permite que isso aconteça porque é uma bela forma de se torturar quem escreve e afundá-lo ainda mais nela, já que os textos depressivos alimentam a própria depressão. Nos momentos mais críticos, porém, eu não conseguia colocar uma linha no papel, nada. Ficava trancada no quarto, chorando, sofrendo, pensando em uma forma de sair daquele pesadelo. E se escrevia alguma coisa, era algum desabafo totalmente sem sentido que eu rasgava em seguida. Literatura, jamais.
E eu parei de escrever, sim, justamente na época em que consegui me levantar. Fiquei um ano inteiro sem conseguir colocar uma única linha no papel, porque queria ficar bem e escrever sobre sentimentos torturados só me fazia ficar pior. Ali eu percebi isso. E percebi também o quanto é difícil para alguém que já se acostumou a produzir textos depressivos fazer um texto bom e leve, quase impossível, uma tortura, branco total. É como o artista que só consegue produzir estando sob o efeito de alguma droga. A depressão entorpece, ela é ruim, mas começa a fazer parte de nós, sem perceber ela faz com que nós a alimentemos, de forma com que esteja sempre ali, latente. Quebrar o ciclo é que é difícil. Sair do círculo. Eu tive que deixar de escrever durante um ano e meio e se retornei e tive que reaprender a escrever, como estava reaprendendo a viver e a encarar o mundo, é porque escrever era muito mais forte do que qualquer obstáculo. Felizmente. :)
A pergunta do Túlio: " Como vc conseguiu sair da depressão? Com ajuda de algum psicólogo, remédios, psiquiatra? Ou vc 'se curou' sozinha?"
Túlio, eu acredito na ajuda de profissionais, sem dúvida nenhuma, mas o que a gente está acostumado a ver é terapia e medicamentos servindo como paliativo. Conversei com uma psicóloga, no colégio, sobre a possibilidade de consultar um psiquiatra. Ela me disse que eu jamais ficaria cem por cento boa, que depressão era controlável, mas não tinha cura. Me alertou que remédios poderiam causar dependência e me aconselhou a buscar tratamento. Eu não queria passar a vida sendo controlada, queria me livrar daquilo. Saí de lá desejando nunca ter entrado naquele consultório e decidida a me livrar daquilo sozinha. Não, não consegui. Ainda foram mais três longos anos de escuridão. Eu achava que depressão era uma coisa natural do ser humano, já que lidar com emoções nunca é fácil. Comecei a aceitar e tentar aprender a conviver, mas é impossível. Chega uma hora em que você realmente acha que a morte pode ser uma saída.
Eu não queria me matar, queria morrer, achava que tinha alguma diferença nisso..risos...me pegava esperando uma doença que me levasse sem que fosse culpa minha, um câncer, qualquer coisa (olha só a estupidez!) Atravessava o viaduto na saída da faculdade esperando me desequilibrar e cair lá embaixo. Às vezes parava e pensava que pular seria fácil e rápido. Meu sonho, na época, era entrar em coma e esperar a morte sem precisar viver. Cheguei a tomar comprimidos que prometiam, com uma superdosagem, o coma. Me arrependi e acordei, milagrosamente, quatro horas depois...risos...
Um dia um amigo, cheio de vida, alegre, comunicativo, daqueles que enchia qualquer lugar em que estivesse, morreu afogado, justo na semana em que minha mãe tinha me mandado para Brasília para ver se eu melhorava um pouco. Me caiu a ficha da bobagem que eu estava deixando acontecer com a minha vida. Escrevi: "A morte bateu à porta, mas errou de casa". Era eu quem a estava pedindo, querendo, desejando, ansiando. Não era justo. O cara amava viver e havia sido privado, violentamente, disso. E eu, tendo a oportunidade que ele não teve, estava jogando tudo pela janela.
Claro que a consciência disso tudo não foi o suficiente para me tirar do buraco, mas me ajudou a ter uma vontade genuína de me livrar daquilo, de uma vez por todas. Percebi que não queria deixar de viver, só não queria mais viver daquele jeito. E comecei a ter nojo do meu próprio comportamento, dos meus pensamentos destrutivos, das minhas atitudes destrutivas (como a mania de engolir qualquer remédio, para qualquer coisa, sem critério), daquilo que me lançava à cama por dias e dias, me fazia viver feito um zumbi, que me fazia viver isolada, sem conseguir conversar com ninguém. Não, não era normal. E eu não queria controlar nada, ou eu viveria sem aquilo ou não viveria mais. Mas eu queria viver. Então resolvi bater em qualquer porta que pudesse me livrar daquilo.
Por isso eu não considero que tenha saído dessa sozinha. Porque sempre que tentei sozinha não consegui. Conheço gente que conseguiu controlar, que conseguiu superar até, de forma diferente, mas comigo só uma coisa funcionou: Eu me via como alguém à beira da morte, que queria viver. Fui criada na Igreja Batista, tive uma educação bíblica tradicional, acreditava em Deus (se bem que àquela altura do campeonato até isso estava balançando) e tinha plena convicção de que a depressão não era um problema espiritual. Mas como estava desesperada, resolvi apelar. Minha decisão foi mudar radicalmente minha vida. Tudo. Parar tudo, jogar no lixo o que eu havia sido até então e recomeçar do zero. Comecei largando a faculdade e me afastando de todos os "amigos" que me restavam. Engoli meu orgulho batista e entrei, escondido, em um domingo pela manhã na Igreja Universal, onde minha mãe já frequentava. Já tinha ido outras vezes, mas desta vez conversei a sério com Deus, dizendo que não tinha forças para me livrar daquilo e que se ele realmente existisse, eu me colocava à sua disposição para que ele me ajudasse. Já saí diferente, me sentindo mais leve.
Dali para diante, comecei a enxergar onde deveria melhorar, como deveria ser minha forma de enxergar as coisas, para evitar que caísse no buraco de novo. É, eu tive que esquecer tudo o que tinha aprendido até então e me construir tudo de novo. Antes que acusem a IURD de fazer lavagem cerebral, eles não tiveram nada com isso, foi Deus e eu, aqui dentro. Ele me abriu os olhos, não por causa da igreja, mas por causa da minha posição de entrega diante dele. Na verdade Ele sempre quis me ajudar, mas eu dispensava sua interferência em minha vida sem perceber.
Claro que o que eu aprendi ali na IURD, essa noção de fé, de não desistir, do quanto a Bíblia é clara em relação a quem é Deus e o que ele quer para nós e de que ele não é um Deus passivo ou teórico, mas prático, ativo, faz parte dos alicerces em que me reconstruí. Posso ser condenada (e frequentemente sou) pelos "intelectuais" por dizer que se estou de pé é porque sou sustentada por Cristo, mas digo mesmo assim, porque é verdade. Eu experimentei a minha fraqueza e ela quase me destruiu. Não somos nada e nos achamos grande coisa.
Mas tem muita gente por aí, religiosa, vivendo um verdadeiro inferno. Por quê? Porque religião nada tem a ver com vida com Deus. Aliás, às vezes a religião atrapalha, e muito. Eu gosto de ir à Igreja, acho importantíssimo, mas acima de tudo, escolhi ser Cristã e isso faz com que minha base de fé não seja a igreja, não seja religião, mas a Bíblia e orações sinceras a Deus, como quem conversa com um amigo. Porque hoje eu o conheço. Eu o vi fazer coisas incríveis na minha vida e o conheço. Me dar forças para lutar foi a primeira delas. Não estou aqui pregando ou fazendo proselitismo, mas você perguntou, eu tenho que te responder, sinceramente. Estou contando minha experiência, e isso é pessoal. Cada um faz suas escolhas, mas o mais importante é querer mudar, é lutar para isso, e saber que ninguém sabe de nada, ninguém pode te dizer que "você nunca vai sair dessa" ou "isso não tem jeito". A minha escolha foi me voltar para Deus e isso preencheu todas as lacunas da minha vida.
Claro que nem por isso a vida é um mar de rosas e eu não tenho momentos ruins, não fico desanimada, chateada ao passar por situações esquisitas. Às vezes as pessoas se convertem e parece que está tudo perfeito, nunca têm problemas, tudo é legal. Não é. A diferença é que a gente sabe que não está sozinho e momentos ruins são apenas momentos. Passageiros. Por isso eu nunca quis fazer um "blog evangélico" e muitas vezes sou criticada por meus "irmãos em Cristo" porque não saio pregando por aí, não encho meu blog de banners evangelísticos, não grudo adesivo de Jesus por todos os lugares, não falo evangeliquês, não estou em nenhuma comunidade evangélica no orkut.
Simplesmente acho que não precisa e não seria natural para mim fazer isso. Demonstro que sou cristã naturalmente, em minhas atitudes, sem nem pensar muito nisso, se eu realmente for. Nada contra quem faz blog evangélico, mas eu acho que falar evangeliquês e encher a página de referências que só a gente entende, nos fecha em grupinhos, nos isola do mundo e nos faz extraterrestres, não é isso o que eu quero. E o próprio Jesus deixa claro: "não peço que os tire do mundo", orando por seus seguidores. Inclusive eu quero que as pessoas não-evangélicas vejam que cristão também é gente e que seguir a Cristo não é sair do planeta. Acabo falando muito raramente a respeito de religião aqui (só quando alguém me pergunta alguma coisa) e sempre que o faço arranjo mais problema com os crentes do que com os não-crentes...risos...
Resultado: tenho poucos amigos evangélicos, meus amigos são católicos, agnósticos, ateus, espíritas...risos... Eu os respeito, mas eles também me respeitam. Isso é essencial. Mesmo que não gostem da minha igreja, mesmo que achem que Deus não existe, não ficam me atacando com isso ou com aquilo, assim como eu também só falo o que eu acho a respeito disso ou daquilo se me perguntam, e sempre tendo a Bíblia como referência. Se eu não souber, vou estudar a Bíblia e respondo depois. Porque cristianismo não pode ser achismo. Isso quando a pessoa realmente está interessada em entender, não em brigar. Discussão religiosa é a coisa mais inútil que existe, Deus está acima de qualquer religiosidade. Aliás, religiosidade é um troço mecânico e morto que atrapalha o relacionamento pessoal essencial com Deus. Aconselho quando posso, converso, escuto, oro por eles, nunca me esqueço dos meus amigos em minhas orações, sei que Deus não nos coloca na vida das pessoas à toa.
Mas tem gente sofrendo, tem gente precisando ouvir, tem gente buscando, tem gente que só se livra das drogas, da marginalidade, do crime, de doenças, de vícios, de depressão através do encontro com Deus, de outra forma todas essas pessoas já estariam mortas e acho que isso é válido. Por isso tem que ter gente evangelizando, uma hora encontra alguém que realmente precisa ouvir sobre Deus. Para mim, não existe melhor saída, já que eu não sei viver, busco em quem realmente sabe como funciona a vida e o cérebro humano. E tenho razões suficientes para acreditar que Ele existe e quer agir em nossa vida. Eu dispensei qualquer tratamento médico, mas isso não é regra, em absoluto. Se está funcionando contigo, continue. Só não use como muletas, o médico não vai fazer tudo, é você quem tem que tomar o passo, lutar, se esforçar, arrancar os cabelos, não se acomode, de maneira nenhuma. Eu sei que você não tem religião, mas vale, dentro do seu quarto, sozinho, conversar sinceramente com Deus a respeito do que está acontecendo, do que você não quer para a sua vida e pedir forças. Se Ele realmente existir, vai te dar forças e te ajudar. Se não existir, na pior das hipóteses, fica como está. Você não tem nada a perder. Eu tenho certeza de que você logo, logo, verá os resultados. :)
Vai fazer seis anos que comecei a sair do pesadelo e há pelo menos quatro anos me considero totalmente livre (passei por uma prova de fogo, a morte do meu pai, que me fez ver, claramente, que eu era outra pessoa). É algo pessoal, depressão é personalizada, adaptável, mas existem algumas coisas comuns a todos aqueles que sofrem desse mal. Os que não conseguem se livrar dela costumam dizer que quem se livra tinha qualquer coisa, menos depressão. Mas cada um sabe o que passou. Só eu sei o que vivi, só você sabe o que está vivendo. Se a medicina diz que a depressão não pode desaparecer, eu digo "Posso todas as coisas naquele que me fortalece". E isso nunca foi tão real para mim. Não admito a sentença "não posso", ou "é impossível". Eu já vi coisas que me fizeram ter certeza de que o impossível não existe. E se alguém quiser me convencer do contrário, ignoro. A vida é como a gente a enxerga. Minha visão hoje em dia é essa, e não a troco por nada. É questão de sobrevivência.
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Comentários (o haloscan apaga os comentários a cada quatro meses e como já perdi os de alguns posts anteriores, prefiro colá-los aqui, antes que sejam deletados):
Van, obrigado pelos conselhos e obrigado por ter respondido a minha pergunta. Faz pouco tempo que estou fazendo terapia, mas acho que já deu resultado.
Parabéns por vc ter conseguido sair disso tudo, por ter tido tanta força para lutar.
Beijos.
Dois comentários, do Túlio e da Cath, me fizeram parar para escrever este texto, mesmo com a pilha de louças para lavar e um banho urgente para tomar...risos... Primeiro, Cath, guria desaparecida! Eu estava com saudade. E o Túlio sumiu até do Orkut! Fiquei preocupada. Tenho vontade de voltar a responder os comentários, mas essa vontade esbarra no tempo, ou melhor, na falta dele.
O comentário da Cath: "Olha... (como eu sou palpiteira!). Se você escrevia textos depressivos aos 15, isso nao significava necessariamente que voce estava em depressão. A minha experiência com depressao é que nada se faz quando ela esta no comando. Bão, mas a minha experiência nao é representativa. O que sei é que é muito bom que voce nunca tenha parado de escrever."
Cath, eu não escrevia textos depressivos aos quinze anos...risos...eles vieram, anos depois, como consequência do meu estado emocional. E realmente, não se faz nada quando ela está no comando, mas estranhamente, escrever é uma das exceções. Tanto que muitos escritores que sofriam de depressão eram muito mais produtivos quando estavam em crise. Acredito que a depressão, enquanto entidade (...risos...) permite que isso aconteça porque é uma bela forma de se torturar quem escreve e afundá-lo ainda mais nela, já que os textos depressivos alimentam a própria depressão. Nos momentos mais críticos, porém, eu não conseguia colocar uma linha no papel, nada. Ficava trancada no quarto, chorando, sofrendo, pensando em uma forma de sair daquele pesadelo. E se escrevia alguma coisa, era algum desabafo totalmente sem sentido que eu rasgava em seguida. Literatura, jamais.
E eu parei de escrever, sim, justamente na época em que consegui me levantar. Fiquei um ano inteiro sem conseguir colocar uma única linha no papel, porque queria ficar bem e escrever sobre sentimentos torturados só me fazia ficar pior. Ali eu percebi isso. E percebi também o quanto é difícil para alguém que já se acostumou a produzir textos depressivos fazer um texto bom e leve, quase impossível, uma tortura, branco total. É como o artista que só consegue produzir estando sob o efeito de alguma droga. A depressão entorpece, ela é ruim, mas começa a fazer parte de nós, sem perceber ela faz com que nós a alimentemos, de forma com que esteja sempre ali, latente. Quebrar o ciclo é que é difícil. Sair do círculo. Eu tive que deixar de escrever durante um ano e meio e se retornei e tive que reaprender a escrever, como estava reaprendendo a viver e a encarar o mundo, é porque escrever era muito mais forte do que qualquer obstáculo. Felizmente. :)
A pergunta do Túlio: " Como vc conseguiu sair da depressão? Com ajuda de algum psicólogo, remédios, psiquiatra? Ou vc 'se curou' sozinha?"
Túlio, eu acredito na ajuda de profissionais, sem dúvida nenhuma, mas o que a gente está acostumado a ver é terapia e medicamentos servindo como paliativo. Conversei com uma psicóloga, no colégio, sobre a possibilidade de consultar um psiquiatra. Ela me disse que eu jamais ficaria cem por cento boa, que depressão era controlável, mas não tinha cura. Me alertou que remédios poderiam causar dependência e me aconselhou a buscar tratamento. Eu não queria passar a vida sendo controlada, queria me livrar daquilo. Saí de lá desejando nunca ter entrado naquele consultório e decidida a me livrar daquilo sozinha. Não, não consegui. Ainda foram mais três longos anos de escuridão. Eu achava que depressão era uma coisa natural do ser humano, já que lidar com emoções nunca é fácil. Comecei a aceitar e tentar aprender a conviver, mas é impossível. Chega uma hora em que você realmente acha que a morte pode ser uma saída.
Eu não queria me matar, queria morrer, achava que tinha alguma diferença nisso..risos...me pegava esperando uma doença que me levasse sem que fosse culpa minha, um câncer, qualquer coisa (olha só a estupidez!) Atravessava o viaduto na saída da faculdade esperando me desequilibrar e cair lá embaixo. Às vezes parava e pensava que pular seria fácil e rápido. Meu sonho, na época, era entrar em coma e esperar a morte sem precisar viver. Cheguei a tomar comprimidos que prometiam, com uma superdosagem, o coma. Me arrependi e acordei, milagrosamente, quatro horas depois...risos...
Um dia um amigo, cheio de vida, alegre, comunicativo, daqueles que enchia qualquer lugar em que estivesse, morreu afogado, justo na semana em que minha mãe tinha me mandado para Brasília para ver se eu melhorava um pouco. Me caiu a ficha da bobagem que eu estava deixando acontecer com a minha vida. Escrevi: "A morte bateu à porta, mas errou de casa". Era eu quem a estava pedindo, querendo, desejando, ansiando. Não era justo. O cara amava viver e havia sido privado, violentamente, disso. E eu, tendo a oportunidade que ele não teve, estava jogando tudo pela janela.
Claro que a consciência disso tudo não foi o suficiente para me tirar do buraco, mas me ajudou a ter uma vontade genuína de me livrar daquilo, de uma vez por todas. Percebi que não queria deixar de viver, só não queria mais viver daquele jeito. E comecei a ter nojo do meu próprio comportamento, dos meus pensamentos destrutivos, das minhas atitudes destrutivas (como a mania de engolir qualquer remédio, para qualquer coisa, sem critério), daquilo que me lançava à cama por dias e dias, me fazia viver feito um zumbi, que me fazia viver isolada, sem conseguir conversar com ninguém. Não, não era normal. E eu não queria controlar nada, ou eu viveria sem aquilo ou não viveria mais. Mas eu queria viver. Então resolvi bater em qualquer porta que pudesse me livrar daquilo.
Por isso eu não considero que tenha saído dessa sozinha. Porque sempre que tentei sozinha não consegui. Conheço gente que conseguiu controlar, que conseguiu superar até, de forma diferente, mas comigo só uma coisa funcionou: Eu me via como alguém à beira da morte, que queria viver. Fui criada na Igreja Batista, tive uma educação bíblica tradicional, acreditava em Deus (se bem que àquela altura do campeonato até isso estava balançando) e tinha plena convicção de que a depressão não era um problema espiritual. Mas como estava desesperada, resolvi apelar. Minha decisão foi mudar radicalmente minha vida. Tudo. Parar tudo, jogar no lixo o que eu havia sido até então e recomeçar do zero. Comecei largando a faculdade e me afastando de todos os "amigos" que me restavam. Engoli meu orgulho batista e entrei, escondido, em um domingo pela manhã na Igreja Universal, onde minha mãe já frequentava. Já tinha ido outras vezes, mas desta vez conversei a sério com Deus, dizendo que não tinha forças para me livrar daquilo e que se ele realmente existisse, eu me colocava à sua disposição para que ele me ajudasse. Já saí diferente, me sentindo mais leve.
Dali para diante, comecei a enxergar onde deveria melhorar, como deveria ser minha forma de enxergar as coisas, para evitar que caísse no buraco de novo. É, eu tive que esquecer tudo o que tinha aprendido até então e me construir tudo de novo. Antes que acusem a IURD de fazer lavagem cerebral, eles não tiveram nada com isso, foi Deus e eu, aqui dentro. Ele me abriu os olhos, não por causa da igreja, mas por causa da minha posição de entrega diante dele. Na verdade Ele sempre quis me ajudar, mas eu dispensava sua interferência em minha vida sem perceber.
Claro que o que eu aprendi ali na IURD, essa noção de fé, de não desistir, do quanto a Bíblia é clara em relação a quem é Deus e o que ele quer para nós e de que ele não é um Deus passivo ou teórico, mas prático, ativo, faz parte dos alicerces em que me reconstruí. Posso ser condenada (e frequentemente sou) pelos "intelectuais" por dizer que se estou de pé é porque sou sustentada por Cristo, mas digo mesmo assim, porque é verdade. Eu experimentei a minha fraqueza e ela quase me destruiu. Não somos nada e nos achamos grande coisa.
Mas tem muita gente por aí, religiosa, vivendo um verdadeiro inferno. Por quê? Porque religião nada tem a ver com vida com Deus. Aliás, às vezes a religião atrapalha, e muito. Eu gosto de ir à Igreja, acho importantíssimo, mas acima de tudo, escolhi ser Cristã e isso faz com que minha base de fé não seja a igreja, não seja religião, mas a Bíblia e orações sinceras a Deus, como quem conversa com um amigo. Porque hoje eu o conheço. Eu o vi fazer coisas incríveis na minha vida e o conheço. Me dar forças para lutar foi a primeira delas. Não estou aqui pregando ou fazendo proselitismo, mas você perguntou, eu tenho que te responder, sinceramente. Estou contando minha experiência, e isso é pessoal. Cada um faz suas escolhas, mas o mais importante é querer mudar, é lutar para isso, e saber que ninguém sabe de nada, ninguém pode te dizer que "você nunca vai sair dessa" ou "isso não tem jeito". A minha escolha foi me voltar para Deus e isso preencheu todas as lacunas da minha vida.
Claro que nem por isso a vida é um mar de rosas e eu não tenho momentos ruins, não fico desanimada, chateada ao passar por situações esquisitas. Às vezes as pessoas se convertem e parece que está tudo perfeito, nunca têm problemas, tudo é legal. Não é. A diferença é que a gente sabe que não está sozinho e momentos ruins são apenas momentos. Passageiros. Por isso eu nunca quis fazer um "blog evangélico" e muitas vezes sou criticada por meus "irmãos em Cristo" porque não saio pregando por aí, não encho meu blog de banners evangelísticos, não grudo adesivo de Jesus por todos os lugares, não falo evangeliquês, não estou em nenhuma comunidade evangélica no orkut.
Simplesmente acho que não precisa e não seria natural para mim fazer isso. Demonstro que sou cristã naturalmente, em minhas atitudes, sem nem pensar muito nisso, se eu realmente for. Nada contra quem faz blog evangélico, mas eu acho que falar evangeliquês e encher a página de referências que só a gente entende, nos fecha em grupinhos, nos isola do mundo e nos faz extraterrestres, não é isso o que eu quero. E o próprio Jesus deixa claro: "não peço que os tire do mundo", orando por seus seguidores. Inclusive eu quero que as pessoas não-evangélicas vejam que cristão também é gente e que seguir a Cristo não é sair do planeta. Acabo falando muito raramente a respeito de religião aqui (só quando alguém me pergunta alguma coisa) e sempre que o faço arranjo mais problema com os crentes do que com os não-crentes...risos...
Resultado: tenho poucos amigos evangélicos, meus amigos são católicos, agnósticos, ateus, espíritas...risos... Eu os respeito, mas eles também me respeitam. Isso é essencial. Mesmo que não gostem da minha igreja, mesmo que achem que Deus não existe, não ficam me atacando com isso ou com aquilo, assim como eu também só falo o que eu acho a respeito disso ou daquilo se me perguntam, e sempre tendo a Bíblia como referência. Se eu não souber, vou estudar a Bíblia e respondo depois. Porque cristianismo não pode ser achismo. Isso quando a pessoa realmente está interessada em entender, não em brigar. Discussão religiosa é a coisa mais inútil que existe, Deus está acima de qualquer religiosidade. Aliás, religiosidade é um troço mecânico e morto que atrapalha o relacionamento pessoal essencial com Deus. Aconselho quando posso, converso, escuto, oro por eles, nunca me esqueço dos meus amigos em minhas orações, sei que Deus não nos coloca na vida das pessoas à toa.
Mas tem gente sofrendo, tem gente precisando ouvir, tem gente buscando, tem gente que só se livra das drogas, da marginalidade, do crime, de doenças, de vícios, de depressão através do encontro com Deus, de outra forma todas essas pessoas já estariam mortas e acho que isso é válido. Por isso tem que ter gente evangelizando, uma hora encontra alguém que realmente precisa ouvir sobre Deus. Para mim, não existe melhor saída, já que eu não sei viver, busco em quem realmente sabe como funciona a vida e o cérebro humano. E tenho razões suficientes para acreditar que Ele existe e quer agir em nossa vida. Eu dispensei qualquer tratamento médico, mas isso não é regra, em absoluto. Se está funcionando contigo, continue. Só não use como muletas, o médico não vai fazer tudo, é você quem tem que tomar o passo, lutar, se esforçar, arrancar os cabelos, não se acomode, de maneira nenhuma. Eu sei que você não tem religião, mas vale, dentro do seu quarto, sozinho, conversar sinceramente com Deus a respeito do que está acontecendo, do que você não quer para a sua vida e pedir forças. Se Ele realmente existir, vai te dar forças e te ajudar. Se não existir, na pior das hipóteses, fica como está. Você não tem nada a perder. Eu tenho certeza de que você logo, logo, verá os resultados. :)
Vai fazer seis anos que comecei a sair do pesadelo e há pelo menos quatro anos me considero totalmente livre (passei por uma prova de fogo, a morte do meu pai, que me fez ver, claramente, que eu era outra pessoa). É algo pessoal, depressão é personalizada, adaptável, mas existem algumas coisas comuns a todos aqueles que sofrem desse mal. Os que não conseguem se livrar dela costumam dizer que quem se livra tinha qualquer coisa, menos depressão. Mas cada um sabe o que passou. Só eu sei o que vivi, só você sabe o que está vivendo. Se a medicina diz que a depressão não pode desaparecer, eu digo "Posso todas as coisas naquele que me fortalece". E isso nunca foi tão real para mim. Não admito a sentença "não posso", ou "é impossível". Eu já vi coisas que me fizeram ter certeza de que o impossível não existe. E se alguém quiser me convencer do contrário, ignoro. A vida é como a gente a enxerga. Minha visão hoje em dia é essa, e não a troco por nada. É questão de sobrevivência.
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Comentários (o haloscan apaga os comentários a cada quatro meses e como já perdi os de alguns posts anteriores, prefiro colá-los aqui, antes que sejam deletados):
Van, obrigado pelos conselhos e obrigado por ter respondido a minha pergunta. Faz pouco tempo que estou fazendo terapia, mas acho que já deu resultado.
Parabéns por vc ter conseguido sair disso tudo, por ter tido tanta força para lutar.
Beijos.

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