
Quando eu deveria estar formando minha personalidade e me tornando a pessoa que eu seria pelo resto da minha vida eu estava mergulhada em uma depressão absurda, com direito a timidez, introspecção, pessimismo e antipatia. Anti-social, eu não aprendi como me relacionar decentemente com as pessoas.
Quando finalmente me livrei disso, me descobri uma pessoa que eu não sabia quem era, afinal de contas, não sabia ser outra coisa senão aquela suicida depressiva que escrevia poemas de desilusão, solidão e morte aos dezessete anos. Comecei a ter ojeriza àquele comportamento, mas virei um nada, um papel em branco, apavorada com a possibilidade de ter uma vida para viver. Acho que é isso que impede algumas pessoas de lutar com unhas e dentes, se descabelar, arrancar pedaço para se livrar da depressão: o imenso buraco branco em que somos lançados se nos livramos dela.
É tão desesperador que é muito fácil ter uma recaída, já que o mundo de sombras nos é bem mais familiar e, portanto, seguro. Aí a gente insiste e evita voltar à depressão como o ex-fumante evita o contato com o cigarro, como o ex-alcóolatra evita mais um gole. Porque a gente tira a tampa do ralo e escorre cano abaixo se quiser, é muito fácil.
Acontece que mesmo hoje, cinco anos depois do começo do fim do pesadelo, ainda não sei direito quem sou. Fui me reconstruindo, tapando os buracos, refazendo, redescobrindo e quando vi, me tornei uma pessoa que eu não conheço. Virei uma pessoa over. Tudo o que eu não tinha agora tenho em excesso. Facilmente mal interpretada, completamente exposta, às vezes com uma vontade horripilante de encontrar uma concha e virar ostra.
Ainda não sei lidar com pessoas, pessoas não aprenderam ainda a lidar comigo e nem mesmo sei se um dia isso realmente vai acontecer. Não aprendi a ser adulta, não aprendi a fingir. Não suporto ser obrigada a conversar quando não quero conversar, não sei provar que sou isso ou aquilo, não sei ficar me explicando, não sei mudar a opinião dos outros a meu respeito. Ou melhor, não sei querer mudar a opinião dos outros a meu respeito, não sei querer provar que sou isso ou aquilo, não sei querer me explicar. Não sei me importar completamente.
Porque quando eu estava mal, quando eu contava os dias para o fim da minha vida, torcendo para que ele viesse logo, certa de que morreria antes dos vinte e um anos, não tive ninguém para me ajudar. As pessoas que hoje cobram explicações, não estão por perto quando eu mais preciso. Por isso decidi me importar apenas com quem se importa. Quem não se importa, não importa. Eu tenho plena consciência de que não sou nada, mas não tenho a menor vontade de ouvir isso da boca ou -pior- dos olhos de outra pessoa.
Eu só quero viver. Em paz, dentro de uma concha, fazendo o que eu gosto. Não quero ser julgada, mas não me importo se sou. Ou talvez até me importe. Enche o saco, é importante, no sentido menos nobre da palavra. Todo mundo gostaria de ser visto como quem realmente é, mas as pessoas nos vêem como elas querem ver, esse é o fato, e temos muito pouco controle sobre isso.
Eu quero, agora, aparar as arestas, mais uma vez, porque sou cheia delas. Torcendo pelo dia em que alcançarei o tão almejado equilíbrio. Sim, aquele que ninguém alcança. Não tenho a pretensão de ser a única, mas se eu não tiver esperança, não aparo nada, não conserto nada e me acomodo a ser essa pessoa over. A mulher-excesso. A intensidade me incomoda, a intensidade é ruim, a intensidade grita, tem volume alto, voz estridente. A ansiedade incomoda. Quero aparar as arestas para caber na concha.
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