Todas as Tragédias
E uma noite inesquecível
Quando eu descobri que eles existiam, já tinha meu próprio mundo, com nome, língua oficial, hino e tudo o mais. Figueiróp era uma ilha flutuante repleta de figueiras e seu povo (os Figueiropianos) tinha um conceito de liberdade que não se conhecia em nenhum outro país. Então me aparecem esses dois indivíduos, falando em uma tal de Sbórnia que também era uma ilha flutuante... isso soou mágico aos meus ouvidos infantis. Então era verdade! Existiam ilhas flutuantes!! Figueiróp poderia então, tranquilamente, ser real. E era.
Decorei rapidinho, só de ver na televisão, "Ana Cristina eu não gosto de você, estou amando loucamente a sua mãe", "Eram duas caveiras que se amavam...", aprendi a dançar o Copérnico e também sabia a música de cor, pela facilidade que sempre tive em decorar letras na primeira vez que ouvisse (isso é bom, mas também sabe ser ruim, dependendo da música em questão).
Cresci, adolesci, adulteci, me mudei para Porto Alegre, casei, mudei para o Rio, voltei a Porto Alegre, mas nunca tinha assistido a um mísero show do Tangos e Tragédias. Eram ícones da minha infância que eu só tinha visto pela televisão. Então há uns dois dias descobri no shopping um cartaz que anunciava o show deles no sábado à noite.
Claro, fiquei triste porque tinha combinado com o Davison que assistiríamos juntos ao espetáculo quando houvesse um em Porto Alegre. Ele já tinha assistido na refinaria, quando a Petrobras ainda bancava apresentações de qualidade no churrasco de final de ano, antes de eu conhecer o Davison (não que uma coisa tenha a ver com a outra), mas nada pode ser comparado a assistir ao show em um teatro.Compramos os ingressos hoje cedo e ficamos na penúltima fileira, mas como o teatro é pequeno, isso não foi problema.
O espetáculo é incrível. A criança que eu fui adoraria ter presenciado uma apresentação daquelas, mas posso garantir que a criança que ainda sou não se divertiu menos. Fácil mergulhar no universo deles, desligar-se do resto do mundo, dos problemas, da vida lá fora e absorver todo o humor, o brilhantismo das execuções musicais, as tiradas inteligentes, o humor embutido nos detalhes. É impressionante como os instrumentos tornam-se extensão de seus próprios corpos e mentes, brincam com eles com a segurança de quem sabe muito bem o que está fazendo. Têm uma presença de palco impressionante, são irretocavelmente expressivos (em todos os sentidos do termo) e o espetáculo é simples, com iluminação perfeita e cenário minimalista, já que não há necessidade de nada além dos dois.
O mais incrível de tudo foi minha volta à infância, resgatar memórias que eu nem sabia que ainda existiam, repetir as letras das músicas mentalmente ou em voz alta, me lembrando de quando sonhava em ver um intercâmbio cultural entre a Sbórnia e Figueiróp, quem sabe até um campeonato esportivo envolvendo times dos dois países.
Acabado o espetáculo, descobrimos que o espetáculo não havia acabado coisa nenhuma, continuava do lado de fora. No final, conversaram, deram autógrafos, tiraram fotos, foram super atenciosos e educados com todo mundo, minha mãe tirou fotos com os dois, eu também tirei, sendo que umas duas fotos foram com o Hique Gomez (porque a máquina é jurássica e não dá para saber se ficou boa ou não) e comentei com o Nico Nicolaiewski que morava em Porto Alegre.
Perguntei se havia previsão para show por lá (e ao mesmo tempo pensei: caramba, guria, olha depois a agenda deles na internet). Ele disse que costumam fazer em janeiro. Quantos janeiros passei em Porto Alegre? Achei que não tinha sido nenhum, mas se não me engano eu estava em janeiro de 2004 e 2005 lá. Ou não? Enfim, que venha janeiro, para eu poder curtir o espetáculo de hoje com o Dave.
Então, na terceira foto com o Hique, ele sem graça e eu também. Quando finalmente tive a chance de ir embora dignamente, deixando uma boa imagem que se desvaneceria rapidamente, sendo eu apenas mais um rosto na multidão, eu, a rainha do fiasco, desprezei a tal chance.
Achei que não haveria outra oportunidade de dizer a ele o quanto eles haviam marcado minha infância e o quão responsáveis eram por eu ter dado tanta importância à criatividade e à liberdade criativa (não, eu não ia culpá-los de nada), vendo adultos tão criativos e livres quanto crianças.
Mas convenhamos, dizer: "Sabe, vocês foram os responsáveis diretos por eu ter me conscientizado na infância a respeito de manter a liberdade criativa até a vida adulta" ficaria, no mínimo, assustador. A última coisa que eu queria era parecer uma chata de sandálias. Então pensei em dizer apenas: "Vocês marcaram a minha infância", como disse para o Ziraldo, mas essa afirmação tem dois problemas: 1- não fica claro se marcou positiva ou negativamente a infância da criatura, 2- seria a mesma coisa de chamar o cara de velho.
Então, desisti da idéia....mas isso tudo se deu em milésimos de segundo e quando desisti da idéia já tinha me aproximado com cara de pergunta e dito "Você" então, meu cérebro, desesperado, jogou a primeira coisa que apareceu pela frente, para completar:
- Você é pai da Clarah , não é?
Hein???? De onde saiu a Clarah??? Como a Clarah Averbuck foi parar ali, no meio das recordações da minha infância???
Ele me olhou, surpreso:
- Você conhece a Clarah?
Não. Eu sou uma maluca viciada em internet que não conhece quase ninguém pessoalmente... talvez eu pudesse explicar que até meu marido conheci via blog e me apaixonei antes mesmo do primeiro e-mail (mas aí ele poderia achar que eu sou uma lésbica apaixonada pela filha dele). Talvez eu conseguisse explicar como a gente acredita piamente que conhece uma pessoa mesmo não a conhecendo pessoalmente.
- Só da internet.
- Mas conhece ela pessoalmente?
-Han...é...na verdade não, (na verdade não, meu cérebro é que puxou essa pergunta de algum buraco subterrâneo desprovido de neurônios) conheço os livros dela. Na verdade eu a conheci pelo blog.- Tentei justificar a asneira.
- Ah, pelo blog.
- É, pelo blog, pelos livros... (Como raios Clarah Averbuck foi parar no meio das lembranças da minha infância????) e agora da banda (putz, eu vivo atrás da mulher? Conheço todos os passos dela!) Eu fico penseguindo ela na internet..hehehe... - tentei descontrair, sorrindo, mas sem perceber fiz uma cara de idiota que tinha dito o maior número de bobagens por segundo, praticamente uma recordista mundial. Porém essa expressão pode ser facilmente confundida com uma expressão de serial killer enlouquecida.
E fiquei lá, com cara de psicopata que persegue a filha do cara pela internet. Fiquei imaginando o que meu pai pensaria de uma pessoa que dissesse a ele que perseguia sua filha pela internet. Ele preferiu não contrariar, podia ser perigoso.
- Ah, tá...legal...eu vou....vou falar para ela que...que tem gente que conhece ela e perguntou dela... -respondeu, simpático, sem querer contrariar.
Ok, tio, eu também não saberia o que dizer. (Não diga nada, por favor, basta um me achando imbecil) Pensei em dar os parabéns pelo dia dos pais, ou pelo aniversário de dois anos da netinha dele, mas não me agradava a idéia de sair dali com um modelito branco de mangas longas amarradas nas costas. Não ia combinar com meu cabelo.
Fiz aquela cara de louca involuntariamente e felizmente uma senhora pediu autógrafo e ele pôde olhar para o outro lado sem temer represálias. Saí de lá com três CDs, nenhum autógrafo e várias fotos.
Há anos me livrei da timidez, mas não daquela incrível capacidade que só os extremamente tímidos têm de fazer uma lista mental no inconsciente em milésimos de segundo das coisas mais idiotas a serem ditas e escolher, aleatoriamente, a mais imbecil de todas elas. E depois não saber mais o que dizer, já que o assunto surgiu pelo gerador automático de declarações e perguntas estúpidas (GADPE), que tem o poder apenas de gerar a inicial, não de dar continuidade.
Mas se antes eu me torturava semanas a fio por tamanha idiotice, agora abstraio instantaneamente, sou totalmente capaz de rir de minha própria desgraça logo em seguida. E foi o que fiz, saí de lá rindo, aumentando ainda mais minha recém-adquirida fama de psicótica.
Eu sempre faço isso. Consigo pagar os piores micos do universo quando estou diante de uma pessoa que admiro. E quanto mais pessoas das quais gosto estiverem envolvidas, melhor.
Eu tenho um dom. Quando conheci a Claudia Letti ela deve ter me achado a pessoa mais quieta do mundo, porque tinha medo de abrir a boca e sair uma asneira qualquer. Em nosso segundo encontro com a Paula Foschia e o Paulo Polzonoff, fui com "Primavera Eterna" (agora é que me dei conta de que nunca escrevi nada sobre Primavera Eterna. Prometo consertar esse erro) e "O Cabotino" no bolso e pedi autógrafo. :) Felizmente acabei me tornando amiga dessas pessoas e pude pagar meus pecados com elas em tempo oportuno :)
Chamei o Ziraldo de velho dizendo que ele marcou minha infância e ainda comentei que ele tinha sido o responsável por eu não ter ficado com complexo do meu umbigo de bolinha, já que li "Rolim" quando era bem nova e comecei a achar meu umbigo lindo (que ninguém se esqueça que o Rolim virou umbigo da Garota de Ipanema)...mas isso foi premeditado, ainda tive tempo de desistir da idéia que o gerador automático de declarações e perguntas estúpidas deu, mas me recusei.
Eu disse ao Millôr que ele era mais bonito pessoalmente (aliás, o mesmo posso dizer do Hique Gomez e do Nico Nicolaiewski). E ainda completei: "Não que nas fotos não seja bonito". E foi de coração. No caso do Millôr foi diferente, era amor à primeira vista. Nunca fui exatamente fã incondicional de seu trabalho, foi o Davison quem me convenceu a gostar dele. Colaborou com isso o fato de o Davison ter me mostrado uma maneira mais leve de ver as coisas. Posteriormente, as pregações do Davison em favor do Millôr ganharam reforço dos Paulos amigos. Inclusive ouvi algumas centenas de vezes que se o Millôr escrevesse em inglês seria o melhor escritor vivo do mundo. :)
Mas quando o vi pessoalmente, o achei lindo. E -pior- disse isso a ele. Não só lindo como também simpático, educado, discreto e atencioso, como os dois rapazes de hoje. Como assumo tudo o que digo, faço e penso, incluindo aí os micos e bobagens, não havia a menor razão para não tornar isso público, assim como não há a mínima razão para eu ter omitido que no exato dia em que tinha decidido fazer faculdade de medicina veterinária, desmaiei durante a cirurgia de castração de uma chiuaua. Acho que mico nenhum supera esse. Nem mesmo o de hoje.
Pior é que saí do teatro desesperada para escrever um texto sobre tudo isso, mas não havia levado o caderno. Comecei a me preocupar com o desespero que tomou conta do meu ser, esse negócio de escrever compulsivamente deve ser perigoso. Passamos no Comper (Campo Grande tem hipermercado 24 horas, tá?) e comprei um caderno e duas canetas (eles só vendem o casal de canetas, não tem avulso), fui rabiscando um esboço de qualquer coisa parecida com um texto no caminho. Não houve tempo para sintoma de abstinência maior do que uma reles dorzinha de cabeça, misturada com o sono absurdo causado por minha alergia a adrenalina.
E acabei não dizendo para o Sr Averbuck e seu amigo o quanto o Tangos e Tragédias foi importante na minha infância, o quanto me marcou positivamente e o carinho enorme que tenho por esses personagens e por essa dupla multifuncional fantástica que não teve medo de arriscar e lançar no mercado nacional com tão boa aceitação algo sem precedentes, que me faz ter um orgulho imenso de ser gaúcha.
Ps: Tá, eu sei que não sou gaúcha. Entendam a poética da coisa. Eu sei que nasci no Mato Grosso DO SUL e isso não posso mudar, mas sou gaúcha de Porto Alegre por opção (falo até "bah"), assim como me tornei Lampert por livre e espontânea vontade. E continuarei sendo (gaúcha e Lampert) mesmo quando me mudar para outro estado.
Ps2: Eu era leitora assídua do blog da Clarah, não a conheço pessoalmente, mas simpatizo um monte com ela, foi um dos primeiros blogs que conheci e até hoje costumo dar uma bisbilhotada no blog da banda dela e nos arquivos do Brazileira!Preta, até planejei ir ao show que eles (jazzie e os vendidos) fizeram em Porto Alegre, pouco antes de eu vir para cá, mas depois dessa de hoje, estou quase achando bom ter perdido o show para cuidar da Ricota. Ou acabaria arranjando mais um para a coleção de micos do ano.
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Comentários (o haloscan apaga os comentários após quatro meses e eu já perdi os de alguns posts anteriores, por isso prefiro colar aqui, antes que eles desapareçam)
E uma noite inesquecível
Quando eu descobri que eles existiam, já tinha meu próprio mundo, com nome, língua oficial, hino e tudo o mais. Figueiróp era uma ilha flutuante repleta de figueiras e seu povo (os Figueiropianos) tinha um conceito de liberdade que não se conhecia em nenhum outro país. Então me aparecem esses dois indivíduos, falando em uma tal de Sbórnia que também era uma ilha flutuante... isso soou mágico aos meus ouvidos infantis. Então era verdade! Existiam ilhas flutuantes!! Figueiróp poderia então, tranquilamente, ser real. E era.
Decorei rapidinho, só de ver na televisão, "Ana Cristina eu não gosto de você, estou amando loucamente a sua mãe", "Eram duas caveiras que se amavam...", aprendi a dançar o Copérnico e também sabia a música de cor, pela facilidade que sempre tive em decorar letras na primeira vez que ouvisse (isso é bom, mas também sabe ser ruim, dependendo da música em questão).
Cresci, adolesci, adulteci, me mudei para Porto Alegre, casei, mudei para o Rio, voltei a Porto Alegre, mas nunca tinha assistido a um mísero show do Tangos e Tragédias. Eram ícones da minha infância que eu só tinha visto pela televisão. Então há uns dois dias descobri no shopping um cartaz que anunciava o show deles no sábado à noite.
Claro, fiquei triste porque tinha combinado com o Davison que assistiríamos juntos ao espetáculo quando houvesse um em Porto Alegre. Ele já tinha assistido na refinaria, quando a Petrobras ainda bancava apresentações de qualidade no churrasco de final de ano, antes de eu conhecer o Davison (não que uma coisa tenha a ver com a outra), mas nada pode ser comparado a assistir ao show em um teatro.Compramos os ingressos hoje cedo e ficamos na penúltima fileira, mas como o teatro é pequeno, isso não foi problema.
O espetáculo é incrível. A criança que eu fui adoraria ter presenciado uma apresentação daquelas, mas posso garantir que a criança que ainda sou não se divertiu menos. Fácil mergulhar no universo deles, desligar-se do resto do mundo, dos problemas, da vida lá fora e absorver todo o humor, o brilhantismo das execuções musicais, as tiradas inteligentes, o humor embutido nos detalhes. É impressionante como os instrumentos tornam-se extensão de seus próprios corpos e mentes, brincam com eles com a segurança de quem sabe muito bem o que está fazendo. Têm uma presença de palco impressionante, são irretocavelmente expressivos (em todos os sentidos do termo) e o espetáculo é simples, com iluminação perfeita e cenário minimalista, já que não há necessidade de nada além dos dois.
O mais incrível de tudo foi minha volta à infância, resgatar memórias que eu nem sabia que ainda existiam, repetir as letras das músicas mentalmente ou em voz alta, me lembrando de quando sonhava em ver um intercâmbio cultural entre a Sbórnia e Figueiróp, quem sabe até um campeonato esportivo envolvendo times dos dois países.
Acabado o espetáculo, descobrimos que o espetáculo não havia acabado coisa nenhuma, continuava do lado de fora. No final, conversaram, deram autógrafos, tiraram fotos, foram super atenciosos e educados com todo mundo, minha mãe tirou fotos com os dois, eu também tirei, sendo que umas duas fotos foram com o Hique Gomez (porque a máquina é jurássica e não dá para saber se ficou boa ou não) e comentei com o Nico Nicolaiewski que morava em Porto Alegre.
Perguntei se havia previsão para show por lá (e ao mesmo tempo pensei: caramba, guria, olha depois a agenda deles na internet). Ele disse que costumam fazer em janeiro. Quantos janeiros passei em Porto Alegre? Achei que não tinha sido nenhum, mas se não me engano eu estava em janeiro de 2004 e 2005 lá. Ou não? Enfim, que venha janeiro, para eu poder curtir o espetáculo de hoje com o Dave.
Então, na terceira foto com o Hique, ele sem graça e eu também. Quando finalmente tive a chance de ir embora dignamente, deixando uma boa imagem que se desvaneceria rapidamente, sendo eu apenas mais um rosto na multidão, eu, a rainha do fiasco, desprezei a tal chance.
Achei que não haveria outra oportunidade de dizer a ele o quanto eles haviam marcado minha infância e o quão responsáveis eram por eu ter dado tanta importância à criatividade e à liberdade criativa (não, eu não ia culpá-los de nada), vendo adultos tão criativos e livres quanto crianças.
Mas convenhamos, dizer: "Sabe, vocês foram os responsáveis diretos por eu ter me conscientizado na infância a respeito de manter a liberdade criativa até a vida adulta" ficaria, no mínimo, assustador. A última coisa que eu queria era parecer uma chata de sandálias. Então pensei em dizer apenas: "Vocês marcaram a minha infância", como disse para o Ziraldo, mas essa afirmação tem dois problemas: 1- não fica claro se marcou positiva ou negativamente a infância da criatura, 2- seria a mesma coisa de chamar o cara de velho.
Então, desisti da idéia....mas isso tudo se deu em milésimos de segundo e quando desisti da idéia já tinha me aproximado com cara de pergunta e dito "Você" então, meu cérebro, desesperado, jogou a primeira coisa que apareceu pela frente, para completar:
- Você é pai da Clarah , não é?
Hein???? De onde saiu a Clarah??? Como a Clarah Averbuck foi parar ali, no meio das recordações da minha infância???
Ele me olhou, surpreso:
- Você conhece a Clarah?
Não. Eu sou uma maluca viciada em internet que não conhece quase ninguém pessoalmente... talvez eu pudesse explicar que até meu marido conheci via blog e me apaixonei antes mesmo do primeiro e-mail (mas aí ele poderia achar que eu sou uma lésbica apaixonada pela filha dele). Talvez eu conseguisse explicar como a gente acredita piamente que conhece uma pessoa mesmo não a conhecendo pessoalmente.
- Só da internet.
- Mas conhece ela pessoalmente?
-Han...é...na verdade não, (na verdade não, meu cérebro é que puxou essa pergunta de algum buraco subterrâneo desprovido de neurônios) conheço os livros dela. Na verdade eu a conheci pelo blog.- Tentei justificar a asneira.
- Ah, pelo blog.
- É, pelo blog, pelos livros... (Como raios Clarah Averbuck foi parar no meio das lembranças da minha infância????) e agora da banda (putz, eu vivo atrás da mulher? Conheço todos os passos dela!) Eu fico penseguindo ela na internet..hehehe... - tentei descontrair, sorrindo, mas sem perceber fiz uma cara de idiota que tinha dito o maior número de bobagens por segundo, praticamente uma recordista mundial. Porém essa expressão pode ser facilmente confundida com uma expressão de serial killer enlouquecida.
E fiquei lá, com cara de psicopata que persegue a filha do cara pela internet. Fiquei imaginando o que meu pai pensaria de uma pessoa que dissesse a ele que perseguia sua filha pela internet. Ele preferiu não contrariar, podia ser perigoso.
- Ah, tá...legal...eu vou....vou falar para ela que...que tem gente que conhece ela e perguntou dela... -respondeu, simpático, sem querer contrariar.
Ok, tio, eu também não saberia o que dizer. (Não diga nada, por favor, basta um me achando imbecil) Pensei em dar os parabéns pelo dia dos pais, ou pelo aniversário de dois anos da netinha dele, mas não me agradava a idéia de sair dali com um modelito branco de mangas longas amarradas nas costas. Não ia combinar com meu cabelo.
Fiz aquela cara de louca involuntariamente e felizmente uma senhora pediu autógrafo e ele pôde olhar para o outro lado sem temer represálias. Saí de lá com três CDs, nenhum autógrafo e várias fotos.
Há anos me livrei da timidez, mas não daquela incrível capacidade que só os extremamente tímidos têm de fazer uma lista mental no inconsciente em milésimos de segundo das coisas mais idiotas a serem ditas e escolher, aleatoriamente, a mais imbecil de todas elas. E depois não saber mais o que dizer, já que o assunto surgiu pelo gerador automático de declarações e perguntas estúpidas (GADPE), que tem o poder apenas de gerar a inicial, não de dar continuidade.
Mas se antes eu me torturava semanas a fio por tamanha idiotice, agora abstraio instantaneamente, sou totalmente capaz de rir de minha própria desgraça logo em seguida. E foi o que fiz, saí de lá rindo, aumentando ainda mais minha recém-adquirida fama de psicótica.
Eu sempre faço isso. Consigo pagar os piores micos do universo quando estou diante de uma pessoa que admiro. E quanto mais pessoas das quais gosto estiverem envolvidas, melhor.
Eu tenho um dom. Quando conheci a Claudia Letti ela deve ter me achado a pessoa mais quieta do mundo, porque tinha medo de abrir a boca e sair uma asneira qualquer. Em nosso segundo encontro com a Paula Foschia e o Paulo Polzonoff, fui com "Primavera Eterna" (agora é que me dei conta de que nunca escrevi nada sobre Primavera Eterna. Prometo consertar esse erro) e "O Cabotino" no bolso e pedi autógrafo. :) Felizmente acabei me tornando amiga dessas pessoas e pude pagar meus pecados com elas em tempo oportuno :)
Chamei o Ziraldo de velho dizendo que ele marcou minha infância e ainda comentei que ele tinha sido o responsável por eu não ter ficado com complexo do meu umbigo de bolinha, já que li "Rolim" quando era bem nova e comecei a achar meu umbigo lindo (que ninguém se esqueça que o Rolim virou umbigo da Garota de Ipanema)...mas isso foi premeditado, ainda tive tempo de desistir da idéia que o gerador automático de declarações e perguntas estúpidas deu, mas me recusei.
Eu disse ao Millôr que ele era mais bonito pessoalmente (aliás, o mesmo posso dizer do Hique Gomez e do Nico Nicolaiewski). E ainda completei: "Não que nas fotos não seja bonito". E foi de coração. No caso do Millôr foi diferente, era amor à primeira vista. Nunca fui exatamente fã incondicional de seu trabalho, foi o Davison quem me convenceu a gostar dele. Colaborou com isso o fato de o Davison ter me mostrado uma maneira mais leve de ver as coisas. Posteriormente, as pregações do Davison em favor do Millôr ganharam reforço dos Paulos amigos. Inclusive ouvi algumas centenas de vezes que se o Millôr escrevesse em inglês seria o melhor escritor vivo do mundo. :)
Mas quando o vi pessoalmente, o achei lindo. E -pior- disse isso a ele. Não só lindo como também simpático, educado, discreto e atencioso, como os dois rapazes de hoje. Como assumo tudo o que digo, faço e penso, incluindo aí os micos e bobagens, não havia a menor razão para não tornar isso público, assim como não há a mínima razão para eu ter omitido que no exato dia em que tinha decidido fazer faculdade de medicina veterinária, desmaiei durante a cirurgia de castração de uma chiuaua. Acho que mico nenhum supera esse. Nem mesmo o de hoje.
Pior é que saí do teatro desesperada para escrever um texto sobre tudo isso, mas não havia levado o caderno. Comecei a me preocupar com o desespero que tomou conta do meu ser, esse negócio de escrever compulsivamente deve ser perigoso. Passamos no Comper (Campo Grande tem hipermercado 24 horas, tá?) e comprei um caderno e duas canetas (eles só vendem o casal de canetas, não tem avulso), fui rabiscando um esboço de qualquer coisa parecida com um texto no caminho. Não houve tempo para sintoma de abstinência maior do que uma reles dorzinha de cabeça, misturada com o sono absurdo causado por minha alergia a adrenalina.
E acabei não dizendo para o Sr Averbuck e seu amigo o quanto o Tangos e Tragédias foi importante na minha infância, o quanto me marcou positivamente e o carinho enorme que tenho por esses personagens e por essa dupla multifuncional fantástica que não teve medo de arriscar e lançar no mercado nacional com tão boa aceitação algo sem precedentes, que me faz ter um orgulho imenso de ser gaúcha.
Ps: Tá, eu sei que não sou gaúcha. Entendam a poética da coisa. Eu sei que nasci no Mato Grosso DO SUL e isso não posso mudar, mas sou gaúcha de Porto Alegre por opção (falo até "bah"), assim como me tornei Lampert por livre e espontânea vontade. E continuarei sendo (gaúcha e Lampert) mesmo quando me mudar para outro estado.
Ps2: Eu era leitora assídua do blog da Clarah, não a conheço pessoalmente, mas simpatizo um monte com ela, foi um dos primeiros blogs que conheci e até hoje costumo dar uma bisbilhotada no blog da banda dela e nos arquivos do Brazileira!Preta, até planejei ir ao show que eles (jazzie e os vendidos) fizeram em Porto Alegre, pouco antes de eu vir para cá, mas depois dessa de hoje, estou quase achando bom ter perdido o show para cuidar da Ricota. Ou acabaria arranjando mais um para a coleção de micos do ano.
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Comentários (o haloscan apaga os comentários após quatro meses e eu já perdi os de alguns posts anteriores, por isso prefiro colar aqui, antes que eles desapareçam)

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