A Prova do Crime

Fico deprimida toda vez que tenho que provar uma roupa em uma dessas lojas de departamentos. Eles usam o pior espelho, no pior ângulo, com a pior luz na pior posição possível.
Hoje demorei algum tempo em frente aos espelhos de um desses provadores, sem querer acreditar em tantos defeitos que meus olhos estavam vendo. Minha pele não pode estar daquele jeito!!! É impossível!!! Com tantos cremes, tantos cuidados, é impossível ela estar naquele estado!
E as gorduras localizadas? A barriga fica enorme, mas em compensação as pernas parecem muito mais finas. O bumbum inexiste e os peitos são de outra pessoa. Não é possível que um simples espelho errado (ou melhor, dois) com a luz errada no lugar errado faça todo esse estrago.
A pele, azulada e opaca contrasta com o cabelo sem brilho, bicolor e oleoso na raiz. Eu sou um monstro. Definitivamente, a culpa não é do provador. Fico tão abismada com a realidade da minha situação física que esqueço de olhar a roupa que, aliás, coloquei rapidamente para esconder aquela barriga horrorosa. Acho que no final das contas a gente fica tão chocada que acaba levando qualquer coisa, só para ver se dá jeito naquela desgraça.
Em compensação, o espelho de casa é meu amigo. O que tem aqui na casa da minha mãe é igualzinho o que eu tenho em casa, made in Carrefour. Quanto mais longe você ficar dele, mais magra e alta vai parecer. Já o espelho do banheiro me dá outra noção da minha cara. Costuma ser menos implacável e - prefiro acreditar- mais sincero. Me dá uns toques sobre minha aparência sem fuzilar minha auto-estima.
O que eu carrego na bolsa, porém, é daqueles duplos: de um lado te mostra as imperfeições naturais da sua cara, do outro lado as amplia descomunalmente. Mantenho distância de espelhos de aumento se quiser manter uma auto-imagem positiva, sem achar que meus poros têm uma séria semelhança com crateras lunares.
Já as câmeras digitais costumam dar uma forcinha para mim, a partir da décima quinta foto. Geralmente tiro umas trinta e dessas apenas três se salvam, o que equivale a dizer que as câmeras me ajudam em dez por cento das vezes. Falando nisso, preciso, urgentemente, arranjar uma.
Talvez a obsessão por fotos da minha própria cara resida no fato de eu precisar convencer meu próprio cérebro de que os espelhos dos provadores estão todos errados.
O fato é que acabamos reféns dos espelhos do mundo, que deformam nossas caras, peles e corpos a seu bel-prazer. Bons tempos aqueles em que os espelhos eram feitos de metal polido e pouco se via de realmente nítido neles. Ficava-se com a boa e velha fantasia a respeito de si próprio que, sem a menor sombra de dúvida, por pior que seja, deve ser muito melhor do que a realidade espalhada pelos espelhos de vidro dos provadores de roupas.
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Comentários (o haloscan apaga os comentários após quatro meses e eu já perdi os dos posts anteriores, por isso prefiro colar aqui, antes que eles desapareçam)

Fico deprimida toda vez que tenho que provar uma roupa em uma dessas lojas de departamentos. Eles usam o pior espelho, no pior ângulo, com a pior luz na pior posição possível.
Hoje demorei algum tempo em frente aos espelhos de um desses provadores, sem querer acreditar em tantos defeitos que meus olhos estavam vendo. Minha pele não pode estar daquele jeito!!! É impossível!!! Com tantos cremes, tantos cuidados, é impossível ela estar naquele estado!
E as gorduras localizadas? A barriga fica enorme, mas em compensação as pernas parecem muito mais finas. O bumbum inexiste e os peitos são de outra pessoa. Não é possível que um simples espelho errado (ou melhor, dois) com a luz errada no lugar errado faça todo esse estrago.
A pele, azulada e opaca contrasta com o cabelo sem brilho, bicolor e oleoso na raiz. Eu sou um monstro. Definitivamente, a culpa não é do provador. Fico tão abismada com a realidade da minha situação física que esqueço de olhar a roupa que, aliás, coloquei rapidamente para esconder aquela barriga horrorosa. Acho que no final das contas a gente fica tão chocada que acaba levando qualquer coisa, só para ver se dá jeito naquela desgraça.
Em compensação, o espelho de casa é meu amigo. O que tem aqui na casa da minha mãe é igualzinho o que eu tenho em casa, made in Carrefour. Quanto mais longe você ficar dele, mais magra e alta vai parecer. Já o espelho do banheiro me dá outra noção da minha cara. Costuma ser menos implacável e - prefiro acreditar- mais sincero. Me dá uns toques sobre minha aparência sem fuzilar minha auto-estima.
O que eu carrego na bolsa, porém, é daqueles duplos: de um lado te mostra as imperfeições naturais da sua cara, do outro lado as amplia descomunalmente. Mantenho distância de espelhos de aumento se quiser manter uma auto-imagem positiva, sem achar que meus poros têm uma séria semelhança com crateras lunares.
Já as câmeras digitais costumam dar uma forcinha para mim, a partir da décima quinta foto. Geralmente tiro umas trinta e dessas apenas três se salvam, o que equivale a dizer que as câmeras me ajudam em dez por cento das vezes. Falando nisso, preciso, urgentemente, arranjar uma.
Talvez a obsessão por fotos da minha própria cara resida no fato de eu precisar convencer meu próprio cérebro de que os espelhos dos provadores estão todos errados.
O fato é que acabamos reféns dos espelhos do mundo, que deformam nossas caras, peles e corpos a seu bel-prazer. Bons tempos aqueles em que os espelhos eram feitos de metal polido e pouco se via de realmente nítido neles. Ficava-se com a boa e velha fantasia a respeito de si próprio que, sem a menor sombra de dúvida, por pior que seja, deve ser muito melhor do que a realidade espalhada pelos espelhos de vidro dos provadores de roupas.
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